O Quiro está giro

Escrevo em trânsito, entre Tisimoara e o Porto. Quem me lê há mais tempo sabe que sou um grande adepto da cirurgia menos invasiva possível para as crianças. Talvez a técnica que as pessoas mais identifiquem como cirurgia minimamente invasiva seja a laparoscopia, isto é, a ‘cirurgia pelos furinhos’. Tenho organizado e participado em vários cursos de laparoscopia. Mas, esta foi a primeira vez que fui convidado a ser formador num curso da EUPSA (Associação Europeia de Cirurgiões Pediátricos), no estrangeiro. O curso foi muito giro, com alunos muito interessados e acho que não deixei a representação portuguesa mal vista.

 

A propósitos de treino e cirurgia laparoscópica. Acho que deveriam experimentar esta aplicação: Quiro. Trata-se de uma aplicação para dar os primeiros passos em cirurgia endoscópica. Os primeiros exercícios são grátis.

 

Na cirurgia laparoscópica, o cirurgião não tem acesso directo ao que está a acontecer no interior do doente. A imagem é dada através de uma câmara de vídeo e projectada num monitor. Mais, enquanto os instrumentos cirúrgicos que entram pelos ‘furinhos’ são comandados pelo cirurgião, a câmara é comandada pelo ajudante. Este cirurgião ajudante funciona como os olhos do cirurgião durante todo o procedimento. Como devem imaginar, o primeiro passo de qualquer curso de laparoscopia é aprender a comandar a câmara. Com o Quiro basta ter uma caneta para o fazer. Experimentem, porque está mesmo giro.

 

 

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Vacina durante a gravidez e outras novidades

As vacinas continuam a ser uma fonte de muitas dúvidas que me fazem chegar por e-mail, na consulta, no facebook… Porque sou cirurgião pediátrico, e não propriamente especialista em vacinas, tenho adiado revisitar este tema. Mas de facto, 2017 trouxe com ele um novo plano nacional de vacinação. Entre as novidades, destacam-se:

  • o fim da vacinação universal com a BCG, que passa a ser obrigatória apenas em populações de risco. Estes estão definidos nas normas da Direção Geral de Saúde (disponível online), mas, atendendo à complexidade do tema, acho que o melhor é consultar o médico de família ou o pediatra da criança para saber se insere neste grupo de risco;
  • a introdução de uma vacina hexavalente, ou seja, uma ‘6 em 1’ para evitar tantas picadas;
  • uma nova a vacina para as grávidas. Trata-se de uma vacina Tdpa (vacina contra o tétano, difteria e tosse convulsa, doses reduzidas), que se destina à proteção dos recém-nascidos. Os recém-nascidos só podem ser vacinados contra a tosse convulsa aos 2 meses. Logo, estavam desprotegidos nesses primeiros 2 meses de vida. Esta vacina estou em querer, será a primeira de uma nova geração de vacinas em que a Mãe recebe a picada, produz os anticorpos e passa-os ao filho, protegendo-o.

 

Sendo esta última novidade a mais surpreendende, tem sido ela a que mais dúvidas tem suscitado. Tendencialmente, confio em tudo o que os experts da DGS recomendam. Nao tenho razões para duvidar da sua competência. Ainda assim, há dias, saiu um artigo no Pediatrics que tranquilizará os mais desconfiados: Effectiveness of Vaccination During Pregnancy to Prevent Infant Pertussis. Que eu saiba, este é o primeiro grande estudo sobre a eficácia desta vacina. Foram estudados perto de 150 mil recém-nascidos. A eficácia da vacina materna foi de 91.4% durante os primeiros 2 meses. Mais, a vacina dada à Mãe acrescenta eficácia às vacinas contra a tosse convulsa, que são dadas posteriormente ao recémnascido, durante o primeiro ano. Segundo os mesmos autores, a vacina é perfeitamente inóqua para a Mãe e para o bébé.

 

Sendo assim, esta indicação da DGS é definitivamente para cumprir: «recomenda-se, em cada gravidez, uma dose da vacina contra o tétano, difteria e tosse convulsa (Tdpa6 , doses reduzidas), entre as 20 e as 36 semanas de gestação, idealmente até às 32 semanas.» Passe a palavra, por favor.

 

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[fonte: dgs.pt]

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Afinal o que é isso do (ou da) Montessori?

Foi uma daquelas coincidências fantásticas. Há dias, a Mãe cá de casa perguntava-me se já tinha ouvido falar da metodologia Montessori. Eu, que ultimamente ando um bocadinho fora das ‘trends’ digitais, confessei que não sabia, mas que iria procurar. Não precisei, porque no dia seguinte recebia uma mensagem dum pediatra amigo: tens que conhecer este blogue e falar com a minha amiga Sylvia. A Dra. Sylvia Sousa é psicóloga clínica e educacional e formadora n’O Fio de Ariana, no Porto. Trocámos umas mensagens e encomendei-lhe ‘o sermão’. Afinal o que é isso do Montessori?

 

A Metodologia Montessori

Sylvia Sousa

 

Sou psicóloga clínica e educacional, com experiência no trabalho com crianças e as suas famílias, em contexto privado, há já vários anos n’O Fio de Ariana, no Porto. No meu trabalho, os problemas relacionados com o desenvolvimento infantil e a aprendizagem escolar foram sempre os que me despertaram mais interesse.
Sou mãe de três crianças, cada uma delas um desafio diferente. A observação do comportamento e do desenvolvimento do meu filho do meio, hoje com seis anos de idade, e a consciência de que não se enquadraria no ensino tradicional, levou-me à necessidade de explorar outras abordagens educativas. Com a aproximação da idade escolar urgia encontrar uma escola à medida daquele espírito curioso, espontâneo, e sensível, e aquele corpo irrequieto. Tinha de encontrar uma escola que respeitasse o ritmo de aprendizagem dele, muito perspicaz com os números mas trapalhão com as letras.
Uma mudança de país, e uma vida nova no Sul de França, acabou por dar o mote a uma nova aventura: a descoberta de uma Escola Montessori. A necessidade de aprofundar os meus conhecimentos sobre essa metodologia levou-me a iniciar uma formação com uma das principais impulsionadoras do
movimento Montessori em França, e a criar o blogue Mindful Montessori Portugal, com o objetivo de partilhar as minhas descobertas, e permitir assim que todos acreditemos que sim, é possível criar contextos educativos onde as crianças aprendam e sejam realmente felizes!

 

Vamos então descobrir juntos alguns dos princípios fundamentais da Pedagogia Montessori:

  • Uma pedagogia que respeita o ritmo de cada criança, em que a criança escolhe as suas atividades, e não age por acaso. É fomentada a liberdade de escolha, ou seja, a criança é deixada livre para fazer as suas próprias escolhas, move-se com um entusiasmo que a leva a procurar os objetos que se relacionam com a sua atividade. Isso não significa que não existem regras. A liberdade de escolha cria na criança a capacidade de escolher a coisa certa a fazer, ou seja, decidir o que fazer para dar resposta às suas próprias necessidades, dando assim um passo importante no seu processo de crescimento.
  • Educadores atentos a cada criança individualmente, que com uma atitude paciente, são uma grande ajuda no reforço da auto estima e auto confiança da criança. Observando cada criança, é-lhes possível situar cada criança na fase de desenvolvimento em que se encontra para assim conseguir a acompanhar e estimular de uma forma mais efetiva em cada momento chave do seu desenvolvimento.
  • Uma pedagogia que cuida das emoções, onde os educadores têm formação em Comunicação Não Violenta. As crianças desde cedo adquirem um vocabulário emocional rico e diversificado. Aprendem a ouvir as suas emoções e a identificar as suas necessidades. Os educadores criam e utilizam ferramentas pedagógicas de gestão emocional que utilizam nas suas salas. O grande objetivo é promover a educação para a paz, tão essencial para a fundadora da metodologia, Maria Montessori.
  • Uma pedagogia virada para a natureza e o respeito pelo ambiente. A escola é um lugar propício para a aprendizagem do respeito em todas as suas formas: o respeito pelo outro, mas também o respeito pelo nosso ambiente. A escola dá uma grande importância à natureza: cuidar das plantas, das flores, da horta, descobrir e explorar o espaço à volta da escola, cuidar dos animais,… São criados momentos preciosos de compreensão da natureza, das estações, do crescimento,… Na realidade, não se trata unicamente de refletir sobre o mundo que deixaremos às nossas crianças, mas também sobre que crianças deixaremos a este mundo.
  • Uma pedagogia que assenta em materiais pedagógicos muito específicos, e que cumprem critérios muito rigorosos, determinados após diversos anos de observações e experimentações realizadas por Maria Montessori. São, por isso, materiais validados cientificamente e certificados pela AMI (Associação Montessori Internacional).
  • Uma pedagogia que incentiva a cooperação entre as crianças, apostando na criação de grupos de idades heterogéneas, em que o princípio subjacente consiste em deixar as crianças interagirem umas com as outras, todas de diferentes idades, para que aprendam umas com as outras.

 

As neurociências têm demonstrado nos últimos anos o quanto a pedagogia desenvolvida por Maria Montessori era visionária para a sua época: o contexto de aprendizagem de uma escola Montessori preenche de uma forma perfeita as condições ideais para o processo de ensino-aprendizagem. Mas, para além do material pedagógico específico, para além da heterogeneidade em termos etários para desenvolver a cooperação entre as crianças, não há dúvidas que é o conceito de criança dessa metodologia que permite tais resultados. E uma conceção de relação pedagógica em que o educador já não é “aquele que sabe” mas sim aquele que ajuda a criança a aprender por si mesma.

 

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Desenho que o meu filho fez sobre a forma como se vê na sua escola Montessori, e acho que é sugestivo do tipo de pedagogia que é

Um castelo cheio de coisas extraordinárias

Sinto-me pouco no direito de opinar sobre o que é ser pai de um menino com uma doença crónica. Os meus filhotes são genericamente saudáveis, felizmente. Por força da minha profissão, vou conhecendo muitos pais e Mães com histórias difíceis, histórias com filhos cujas doenças, por serem crónicas, incuráveis ou mesmo fatais, abalam o seus mundos. Admiro muito estes pais, principalmente aqueles que dão a volta e que, mesmo que o mundo insista em virar-se de pernas para o ar, eles usam toda a força que têm para o endireitar e, mesmo que só consigam incliná-lo um bocadinho, vivem o dia-a-dia com um sorriso na cara e esperança no futuro.

 

Porque hoje é Dia do Pai, sugiro-vos conhecerem a história de um pai extraoridinário: John Crowley, fundador e administrador da Amicus Therapeutics, uma empresa de biotecologia que se dedica a doenças raras. Fiquei a conhecer a sua história através da entrevista que deu ao Tim Ferriss. Para quem não conhece, o Tim Ferriss é o podcaster mais popular da Internet (itunes best of 2016).

 

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[fonte: cnbc.com]

 

A história do John Crowley é espantosa. Ele era consultor jurídico, quando soube que dois dos seus três filhos sofriam de Doença de Pompe. Demitiu-se para começar a sua primeira empresa de biotecnologia com o único propósito de encontrar uma cura para a doença dos filhos. Essa empresa acabaria por ser comprada por outra maior. Juntas conseguem desenvolver uma enzima que os seus filhos não podem tomar por não ‘encaixarem no protocolo’. A história tem muitas voltas e acaba por ser uma lição de vida inspiradora. Tão inspiradora que já deu um filme: Extraordinary Measures (em português: Medidas Extraordinárias) com Brendan Fraser, Harrison Ford e Keri Russell. Ailás, se ainda não viram, vejam o filme antes de ouvirem a entrevista, para não estragar o efeito surpresa.

 

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[fonte: amazon.com]

Independentemente do final desta história (não serei spoiler), a determinação deste pai é um exemplo. A força e a esperança que ele deposita nas capacidades da Medicina, nas capacidades dos seus filhos e nas suas próprias capacidades são extraordinárias. Por vezes, sentimo-nos impotentes perante adversidades bem mais pequenas do que a deste pai. Ter dois filhos com uma doença rara e fatal cujos cuidados de saúde eram muito caros, não o dissuadiu de arregaçar as mangas e ir à luta. Lutou por um sonho, por uma vida que ele acreditava fazer mais sentido. Os filhos com necessidades especiais não foram um estorvo. Antes, foram a sua inspiração.

 

Às vezes, sinto que temos que ser chamados à realidade por histórias destas. A vida tem reveses que nos obrigam a reformular a rota que tínhamos planeado. Não era só Fernando Pessoa que tinha pedras no caminho. Maiores ou menores, todos temos as nossas pedras. Cabe a cada um de nós, construir o seu castelo e enchê-lo de coisas extraordinárias.

 

Pequenos-almoços criativos para crianças

Para compensar a minha falta de tempo para alimentar este blogue, socorro-me de amigos e amigas especialistas que sabem escrever muito bem. A convidada especialista de hoje é a Dra. Ana Póvoas e é muito minha amiga. Ela é médica, especialista em Medicina Geral e Familiar. Foi durante algum tempo a nossa médica de família. Entretanto, passou a trabalhar na Clínica Dr. Fernando Póvoas porque, para além de médica, a Dra. Ana há muito que tem interesse pelo comportamento alimentar, em especial pela nutrição infantil, e é mestranda em nutrição clinica. É Mãe do Diogo de 5 anos e do Miguel de 3. Defini-se como «curiosa e criativa na hora de preparar o pequeno almoço e os lanches.» Foi por isso que lhe encomendei este texto. Um texto sobre como tornar os pequenos-almoços mais nutritivos de forma criativa. Acreditem que está delicioso.

 

Pequenos-almoços criativos para crianças

Ana Póvoas

 

Para mim, o pequeno almoço é uma refeição que me dá imenso prazer e, por ocasionalmente partilhar aquilo que se come cá em casa nas redes sociais, fui desafiada pelo João a dar algumas sugestões de pequenos almoços simples, saudáveis e do agrado dos mais pequenos.

É certo que é aquela altura do dia em que a pressa impera, mas se nos organizarmos e descomplicarmos, conseguimos que as crianças vão bem alimentadas para escola e, de preferência, rapidinho. Quem tem filhos mais difíceis de comer e desde sempre habituados aos típicos cereais de pequeno almoço, que estão longe de ser uma boa opção devido ao seu elevado teor de açucar, não pode esperar que de um dia para o outro os seus hábitos mudem como que por magia. O que eu sugiro sempre aos pais é que a mudança comece por eles, sem nunca forçar para não dar uma carga impositiva a nenhum alimento. Comecem vocês mesmos por mudar o vosso pequeno almoço, vão oferecendo e, nos dias mais tranquilos, como férias, fins de semana e feriados, troquem-lhes as voltas e inovem no pequeno almoço deles, mas sempre de forma tranquila.

Assim sendo, vamos ao que interessa, e vou partilhar alguns dos pequenos almoços que por aqui se comem.

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PAPAS DE AVEIA
Para uma chávena de aveia uso 3 chávenas de leite e levo ao lume com canela. Depois de engrossar e ferver, junto banana e passo na varinha mágica. Esta dose dá para os dois rapazes (um de 5 e outro de 3). Posso variar e coloco maçã ou pera a cozer juntamente com aveia, juntar sementes como chia ou coco ralado.

ana2IOGURTE COM ABACATE E MANGA OU BANANA
O abacate é um excelente alimento, mas nem sempre muito apreciado pelos pequenos. Nesta versão, vai ligeiramente disfarçado pelo sabor da banana ou da manga (ou de outra fruta a gosto) e pela canela. Gosto de usar iogurte natural, normal ou grego não açucarado e, por vezes junto também um cereal, como aveia ou cevada para dar mais energia.

panqueca2PANQUECAS
São, sem dúvida, o pequeno almoço favorito cá de casa e, como faço tantas vezes, já fui variando e inventando receitas. A base é 1 ovo, 1 banana e 2 colheres de sopa de farinha de aveia (ou de quinoa, ou de alfarroba, ou de coco ou de avelã… ou mesmo mistura de duas destas).Dá para ir variando com ingredientes como coco ralado, chia, maça em fatias muito fininhas e até 1 colher de chá de chocolate me pó. Faço sempre o dobro ou triplo desta receita para os dois e, caso sobre, dá para um lanche ou para reforçar o pequeno almoço do dia seguinte. Para compor, as panquecas são acompanhadas de iogurte e fruta, manteiga de amendoim feita em casa (a opção mais escolhida) ou mel. Podem ser feitas de véspera e duram, bem acondicionadas, uns três ou quatro dias.

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São também outro sucesso aqui de casa e. A receita base é muito semelhante à das panquecas, 2 ovos, 2 bananas e 4 colheres de farinha de aveia (ou outra a gosto) e 1 colher de chá de fermento. Depois de colocar em formas de silicone recheio com o que tiver em casa: fruta como morangos, framboesas ou mirtilos, pepitas de chocolate negro a 70%, uma colherzinha de manteiga de amendoim, frutos secos, cubinhos pequenos de marmelada…. Os queques da direita são a minha nova invenção e são de batata doce e maçã. Cozi a batata doce com a maça e um pau de canela, escorri muito bem a água e juntei-as a um preparado com 3 ovos, 4 colheres de sopa de farinha de aveia, 1 colher de sobremesa de fermento e 1 chávena de café de leite. Ficaram fofos e deliciosos.

ana5PÃO COM OVO MEXIDO E FRUTA
Este dispensa receita, certo? Apenas vos digo que faço o ovo mexido no micro-ondas e, para além de não sujar mais loiça do que a tijela onde precisamos bater o ovo, é bastante rápido e prático.

ana6IOGURTE COM CEREAIS
Bem sei que a maioria opta pelo leite com cereais, mas eu acho que o iogurte, sendo mais consistente, podemos, num volume mais pequeno (pequeno almoço mais rápido) ter o mesmo valor nutritivo. Além do mais, para os meninos mais difíceis de comer fruta fresca, optando por um iogurte natural dá para depois juntar a fruta em pedaços, maiores ou menores ou mesmo ralada, coisa que o leite não permite. Apesar de fruta inteira ser muito melhor que fruta ralada, às vezes temos de descomplicar e ter a noção que o bom é inimigo do óptimo. Em termos de cereais cá em casa foge-se a 7 pés daqueles que vêm numa caixinha de cartão cheia de desenhos e bonecos, porque são verdadeiras bombas de açucar e, assim, optamos pela aveia, cevada, trigo integral, arroz tufado e algumas granolas.

Espero que este post vos tenha sido útil, que vos inspire e, quem tiver mais sugestões interessantes, toca adeixar receitas na caixa de comentários!!

3 T’s para falarmos mais e melhor com os nossos filhos

Continuando o tema do último texto. Com toda a evidência científica recolhida, a Dra. Dana Suskind sugere uma estratégia para melhorarmos a comunicação com os nossos filhosa. Esta estratégia tem sido testada pela 30 Million Words Foundation, que se dedica a acompanhar famílias carenciadas ou com dificuldades de linguagem a melhorar a comunicação com as crianças.

 

A estratégia baseia-se nos 3 T’s – Tune in, Talk more, Take turns, que se traduz mais ou menos para 3 C’s – Conecte-se, Converse mais, ‘Comporte’ turnos. Por passos:

 

Conecte-se. Significa ir ao encontro da criança e ao seu foco de atenção naquele momento. ‘Sintonizar’ com ela. Se está a brincar, com quê? O contacto visual ajuda muito à ‘sintonização’. Se estiver no chão, sentemo-nos de frente para a criança.

 

Converse mais. Quantidade e qualidade. Desde cedo, podemos narrar tudo o que estamos a fazer ao recém-nascido. «Agora, vou buscar a fralda. Está aqui ao lado. Vamos pôr creme? Que cheirinho…» Mais tarde, podemos narrar as ações da criança. «Estás a brincar com um carro? Ele é azul. Tem uma música bonita. Gostas de dançar ao som desta melodia. É muito alegre.» Quando a criança já fala, podemos complementar o seu discurso. Exemplo: a criança pede colo «upa upa». O pai pode perguntar «queres que o papa pegue em ti ao colo?» e ainda complementar «colo, porque estás cansada. Brincaste muito hoje. Deves estar feliz». 

 

‘Comporte’ turnos. Acho que esta tradução forçada percebe-se mais ou menos. A conversa não é um monólogo, pelo que tem que devemos dar tempo à criança para responder. Se não fala, podemos esperar por um esgar, um sorriso. Se for maior, podemos esperar um conjunto de palavras mais elaborado. Na adolescência, até podemos ter uma resposta filosófica com a qual não concordamos. Mas saber ouvir é uma virtude, que também se aprende. As perguntas abertas (ao contrário das que se respondem com um simples sim ou não), favorecem respostas mais completas e explicativas. Logo, mais conversação.

 

Com estes 3 C’s em mente, podemos melhorar a forma comunicamos com os nossos filhos em cada interação com eles. Se pensarmos bem, falar mais e melhor com as nossas crianças é uma oportunidade para desenvolvermos relações mais saudáveis com eles e de colocarmos toda aquela neuroplasticidade em ação. Vejamos. Quando acrescentamos números e palavras como o mais e o menos às conversa, estamos a trabalhar a suas capacidades de cálculo matemático. Acrescentando grande/pequeno, perto/longe, trabalhamos a sua habilidade espacial. Elogiando processos e comportamentos, vamos ensinando o que é ser bem comportado. Oferecendo diferentes opções em vez de impormos uma ordem, ajudamos no desenvolvimento do pensamento lógico, na auto-regulação.  Mas conversar mais também pode ser cantar, pintar e até brincar ao faz de conta. São formas de nos expressarmos que estimulam a criatividade (a nossa e a das crianças).

 

Ainda há um quarto T sugerido pela Dra. Dana Suskind, que é o Turn It Off. (Este não consegui traduzir para um C, mas aceito sugestões). As nossas vidas estão invadidas pelos telemóveis, pelos tablets, pela televisão, pelas consolas. É mesmo preciso desligar tudo de vez em quando, para podermos aproveitar o tempo em família sem interrupções. A tecnologia está sempre a ‘irromper’ (termo do JM) as nossas conversas. Quantas vezes respondo aos meus filhos sem tirar os olhos do computador? De facto, só desligando toda esta tecnologia é que conseguimos dedicar-nos a 100% à tarefa de estar, conversar, brincar com os nossos filhos. Por isso, desliguemos. E eu começo já por encerrar este post, que já foi longo.

 

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[fonte: thirtymillionwords.org]

 

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A ciência de comunicarmos bem com os nossos filhos

Um artigo de opinião muito interessante no JAMA Pediatrics chamou-me a atenção para um tema que há muito queria falar aqui no blogue. O título ‘The 30 Million–Word Gap’ refere-se à diferença que existe entre o número de palavras que as criança de meios socialmente mais favorecidos e as crianças de meios mais pobres ouvem nos primeiros 3 anos de vida. Este valor é uma estimativa feita a partir dum estudo dos anos 60 que acompanhou o desenvolvimento de 42 crianças. A conclusão principal foi que as crianças de meios mais ricos tinham um desenvolvimento cognitivo e um desempenho escolar superior ao dos meios desfavorecidos, mas o que mais se destacava era que mais importante do que o dinheiro que entrava em cada família era o  número de palavras que a criança ouvia. Ou seja, mesmo vivendo em meio pobre, a criança que fosse bem estimulada verbalmente, conseguia atingir todo o seu potencial e conseguir resultados escolares equiparados às crianças das famílias ricas.

 

Este conceito tem sido confirmado por estudos posteriores e tem marcado alguma revolução da forma como se vê do desenvolvimento neurológico das crianças, também referido como neuroplasticidade. O desenvolvimento da linguagem verbal interage com todas as partes do cérebro e melhora as capacidades da matemática, da expressão artística, do auto-controlo e por aí fora. Alguns estudos conseguiram provar que estimular a linguagem verbal e não verbal nos primeiros 3 anos de vida relaciona-se com maior sucesso no mercado de trabalho e no dinheiro recebido na vida adulta. É um mundo de possibilidades e que pode quebrar o ciclo de pobreza a que muitas  famílias parecem estar vetadas. De facto, a educação é a solução para melhorar o futuro de todas as crianças (em particular as menos favorecidas), mas, se precisamos de melhorar o estímulo que recebem nos primeiros 3 anos, teremos a necessidade de actuar precocemente e sobre as famílias. Daí, a existência de muitas campanhas de ‘leitura desde o berço’, dos ‘15 minutos dedicados à brincadeira com os filhos’, etc.

 

Existe um livro muito interessante que explica o como e o porquê da importância de comunicar bem com as nossas crianças. Chama-se Thirty Million Words e foi escrito pela Dra. Dana Suskind, uma otorrinolaringologista pediátrica da Universidade de Chicago. No decorrer da sua especialização em implantes cocleares, ela começou a verificar que os resultados conseguidos após colocação deste aparelho que restitui a audição a crianças com surdez profunda variavam muito, consoante o estímulo verbal em casa era mais ou menos intenso, mesmo para crianças da mesma idade e com implante colocado na mesma altura. Foi o mote para escrever um livro muito giro que fala do desenvolvimento cerebral, comunicação de e para crianças, da educação dos filhos, entre outros.

 

Baby talking to his mom

[fonte: earlychildhoodeducationwebsites.blogspot.com]

 

A Dra. Dana Suskind percorre muito do conhecimento actual sobre a neuroplasticidade das crianças, explica porque é que ela é máxima no primeiros 3 anos de vida, e baseia as suas conclusões com estudos científicos. As descrições são pormenorizadas, mas tomei notas das suas principais conclusões em relação à forma como nós (pais, cuidadores, professoras) devemos falar com as crianças. São notas telegráficas que partilho aqui convosco. Quem quiser saber mais pormenores, sugiro a leitura do livro que, apesar de ser em inglês, é de leitura muito acessível.

 

1. Os pais devem começar a falar com o seu bebé desde o nascimento. O estímulo verbal deve começar desde o berço, porque a métrica das palavras e os fonemas vão activando os circuitos neurológicos dentro da sua cabecinha: neuroplasticidade. Como o recém-nascido não responde de volta, a conversa pode ser difícil de manter. Uma solução: ler em voz alta. Não precisa de ser um livro infantil, pode ser um romance que estava a ser adiado ou uma relatório do trabalho.

 

2.  A linguagem entre pais (ou cuidadores) e a criança deve ser rica em quantidade e em qualidade. Em vez de falarmos telegraficamente com os filhos ou responderemos Sim/Não, devemos elaborar frases completas, juntar muitos adjectivos, substantivos novos, verbos variados.

 

3. A linguagem deve ser mais positiva do que negativa. Em vez de repetirmos sempre ‘não faças isto’, ‘não digas aquilo’, devemos substituir por frases positivas: ‘faz antes assim’ ou (ainda melhor), ‘e se tentasses antes ir por ali?’

 

4. Usar a abusar do falar-à-bebé. As sílabas agudas e palavras mais cantadas torna-as mais perceptíveis para o bebé. Isto é diferente de ‘abebezarmos’ a linguagem de uma criança que já articula palavras completas.

 

5. Procurar sempre o contacto visual. A comunicação é mais eficaz e favorece o desenvolvimento cerebral se houver um feedback imediato dos pais ao que a criança diz. Este pode ser tão simples como um esgar da face ou uma repetição de termos.

 

6. Falar muito dos números, das formas e das cores, logo nos primeiros meses. Hoje acredita-se que os bebés nascem com uma capacidade inata para perceber números não-verbais. Numa experiência com recém-nascidos, mostrou-se que quando estes ouviam ‘tu-tu-tu-tu’ olhavam mais tempo para imagens com 4 quadrados. Um outro estudo, aos 6 meses mostrou que a forma como ligavam o número de sons ao número de objetos predizia a sua habilidade matemática mais tarde, quando já tinham 4 anos.

 

7. Elogiar mais o processo e menos o carácter da criança. É melhor elogiar a ação (exemplo:  parabéns, esforçaste-te e conseguiste resolver esse problema) versus elogiar o temperamento/feitio da criança (para o mesmo exemplo: resolveste o problema porque és mesmo inteligente). Alguns estudos provam que ‘hiperinsuflar’ o ego da criança pode ser prejudicial, pois torna-as mais passivas, mais dependentes do elogio/julgamento externo, mais mentirosas (no intuito de agradar sempre), mais focadas na opinião dos outros e menos auto-críticas.

 

8. Substituir ordens por raciocínios lógicos. Se em vez de ‘arruma os brinquedos’ substituirmos por ‘agora que já brincámos tudo, o que fazemos a estes brinquedos?’, treinamos a autonomia da criança e promovemos a sua auto-regulação.

 

O livro continua com uma estratégia para implementarmos estes conceitos no nosso dia-a-dia. Mas isso fica para um segundo post, porque este já vai longo e com muita informação para digerir.

 

 

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Filhos quase-gémeos – a nossa história

Hoje, recuperamos uma rúbrica antiga, chamada ‘a nossa história‘. A Mafalda Rio Teles Grilo é uma amiga de longa data, muito antes de ser juiza, antes de ser blogger e ainda antes de ser Mãe de 2 filhotes quase-gémeos. E é a propósito deles e do desafio de ter crianças com menos de um ano de diferença que ela escreve este texto. Posso ter algum viés na avaliação, porque conheço a beleza e a doçura dos dois pequenos. Mas, na minha opinião, o texto está espetacular. Obrigado pela partilha, Mafalda.

 

São gémeos?
Mafalda Rio Teles Grilo

 

– São gémeos?
– Não.- respondo.
– Mas então são muito próximos!

 

Perdi a conta às vezes que ouvi esta pergunta, ao ponto de ter criado a categoria dos “quase-gémeos”, ou “gémeos de anos diferentes”, como um dia me disseram que até estava na moda…

 

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Os meus filhos são muito próximos, de facto! Têm 11 meses e ½ de diferença entre eles. Isto, para quem for rápido de contas, significa que engravidei tinha a Madalena 3 meses, e tendo em consideração que só descobri que estava à espera de outro bebé às 13 semanas de gestação, ainda tudo mais próximo parece.

Mas vamos por partes.

É verdade que sempre quis ter filhos com pouca diferença de idade. Tinha mais ou menos pensado em diferença de 18 a 24 meses. Mas estaria tudo dependente de como corresse a experiência com a primeira.

Foi com surpresa que recebemos a notícia e, não posso negar, choque da minha parte. Pensei, imediatamente, na Madalena, tão bebé, ainda, e com a mãe só para ela por tão pouco tempo – mas o meu marido, que é “gémeo verdadeiro” logo resolveu o meu medo de filha única com um simples “eu nunca tive a minha mãe só para mim!”… estávamos conversados! Vinham aí novos tempos, muito trabalho, muitos medos; mas não havia espaço para dúvidas: era uma grande notícia!

Não posso negar que a partir daí a forma como vivi a maternidade de primeira viagem acabou por ser um bocadinho diferente do que vejo nas outras mães, e mesmo em relação ao que tinha pensado.

Foi inevitável que os meses até ao nascimento do Pedrinho fossem também de preparação da sua chegada. Embora desse toda a atenção do mundo à minha filha, até porque tive a possibilidade de tirar uma licença de maternidade alargada, havia coisas que fisicamente me limitavam. Para além disso, o meu pensamento estava muito direccionado para o futuro, no sentido de perceber como seria a nossa vida com os dois, e facilitá-la.

Até saber do meu caso confesso que não conhecia muita gente com filhos tão próximos: depois de me acontecer a mim as histórias sucediam-se. Percebi, então, que era possível e que na maior parte das vezes as pessoas me relatavam as histórias como experiências felizes.

Acho que foi a partir daí que encarei o que estava a acontecer como uma coisa normal e que a melhor maneira de lidar com os dois bebés era dar-lhes essa normalidade.

Assim, mal o Pedrinho nasceu passei a integrá-lo totalmente na nossa vida. Dei de mamar à frente da Madalena, dei colo aos dois em frente um do outro, mantive-os aos dois em casa comigo, explicava a um e ao outro tudo o que fazia.
Fico até hoje com a sensação de que a Madalena não percepcionou a mudança como a chegada de alguém que lhe roubou espaço. Neste tempo todo nunca me apercebi de qualquer cena “clássica” de ciúmes como às vezes me relatam em crianças mais velhas. Claro que a partir do momento em que o Pedrinho começou a fazer “graças” ela se apercebeu que havia ali outro foco de atenção que já não se limitava a dormir e a chorar para beber leitinho. Passou pela primeira vez a competir por atenção e a mostrar que também sabia fazer coisas. Mas com essas graças surgiu também o companheiro de brincadeiras, a companhia preferida, a pessoa que partilha com ela o quarto, a casa, os pais, os avós.

Nunca notei um retrocesso na Madalena. Quando o Pedrinho nasceu a Madalena tinha começado a andar há 15 dias. De resto, eram poucas as aquisições em termos de autonomia, por isso, também acho que não havia muito por onde retroceder.

Uma coisa que nos ajudou bastante foi o facto da Madalena já dormir a noite inteira e adormecer cedo…isso nunca mudou!

Ao fim destes dois anos de vida a quatro, posso dizer que o balanço é o mais positivo possível.

 

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Não tenho pretensões a dar conselhos àqueles para quem uma aventura destas está a começar, até porque cada bebé é único. Ainda assim, se tivesse que elencar as minhas dicas, resumem-se a isto:

  • Rotinar. Criar rotinas permitiu-nos saber com o que contar, de forma a gerir os tempos de cada um dos bebés e também os nossos tempos; sou uma paranóica das rotinas e não me arrependo. Para quem tem duas crianças pequenas as rotinas são as melhores amigas de todos em casa;
  • Ajudar. Permitir as ajudas, deixar que nos ajudem e pedir ajuda quando precisamos. Vai haver dias de extremo cansaço, de menos paciência e até para evitar que lá cheguemos é importante contarmos com os outros e não nos exigirmos de mais;
  • Manter. E com manter quero dizer que entendo que não devemos alterar a forma como lidamos com um filho só por causa do outro. Acho que se encararmos a situação como normal o filho mais velho vai perceber que está tudo bem, está tudo seguro, que não tem mal a mãe pegar no bebé ou dar-lhe de mamar, que ele já está mais crescido mas também já foi assim e que agora também precisa do amor dos papás (sou terminantemente contra os “esconde-esconde” que deixam as crianças em choque se algum dia são confrontadas com a realidade);
  • Integrar. Integrar o mais velho nas tarefas, dar-lhe importância e mostrar que o seu papel também é fundamental em casa para ajudar (no meu caso concreto esta integração chegou mais tarde, porque na altura do nascimento do irmão, a Madalena ainda não tinha capacidade para pequenas tarefas, embora eu já as solicitasse, explicando “o que é”, “como se chama”, “para que serve”).
  • Dividir. Aqui entra a célebre divisão de tarefas. Fundamental, a meu ver. Somos dois pais, temos dois filhos e, portanto, há que olhar para a vertente útil da equação. Se a mãe amamenta um, então o pai dá biberão ao outro (ou a papa, ou a sopa). Se a mãe faz o jantar, o pai dá os banhos… claro que nem sempre isto se compadece com os horários familiares, o regresso ao trabalho, etc. Mas, então, nessa altura há que recordar as “rotinas” e as “ajudas”.
  • Simplificar. Descomplicar e não ter medo. Lembro-me da primeira vez que saí com eles à rua: um no marsúpio, o outro no carrinho! Fez-se… para aí por 10 minutos! Mas no segundo dia já é mais fácil, e por aí fora… O que acho é que devemos optar por roupas simples, fáceis de mudar, mochilas às costas e “destralhar”. Embora às vezes seja mais fácil, ficar enfiado em casa com dois pequenos não pode ser a opção de todos os dias, e nem sempre temos gente por perto (Neste ponto carrinhos de gémeos são óptima solução, mas no meu caso não cabiam no elevador!)

 

Ao fim de 18 meses em casa voltei ao trabalho. A Madalena e o Pedrinho ficaram os dois juntos com as avós por mais 6 meses. Aos 2 anos da Madalena ela foi para o infantário e deixamos o Pedrinho com as avós por mais um ano. Foi deliberado mantermos esta separação, porque achamos que o mais novo também precisava de um ano de atenção. De facto, ao contrário do que se possa pensar, acho que o mais novo foi sempre o mais “negligenciado”. As suas necessidades eram mais prementes mas mais básicas e o seu primeiro ano foi um bocadinho na sombra da irmã.

Agora estão os dois na escola. Recuperou-se silêncio cá em casa. Já não há biberões e há poucas fraldas. Dormem-se noites completas. Os nossos bebés conversam, comem sozinhos, têm amigos de cada um, mas são os melhores amigos.
Há apenas dois anos esta casa era um caos. Dois anos passados ainda é, mas só às vezes. Como é que isto aconteceu?

 

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Rastreio oftalmológico e ambliopia – como, quando e porquê?

Mais um convidado especialista… e, como verão pela biografia, que especialista! A Dra. Sandra Guimarães é Oftalmologista Pediátrica, no Hospital de Braga, na Iberoftal-Clínicas Oftalmológicas e na Clínica Oftalmológica de Viana do Castelo. É mentora do Projecto Pimpolho, projecto de prevenção da ambliopia que teve início em maio de 2014 numa parceria entre a Câmara Municipal de Braga e o Hospital de Braga e que, em 2016, foi alargado a mais cinco concelhos: Amares, Póvoa de Lanhoso, Terras de Bouro, Viera do Minho e Vila Verde. Está a fazer um doutoramento na área da ambliopia, tema que tantas dúvidas suscita nos pais: o meu filho troca os olhos, é normal? quando deve fazer um rastreio oftalmológico? quando devo levar o meu filho ao oftalmologista pela primeira vez? Estas e outras respostas no texto que se segue.

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Ambliopia – Sabem o que é?

Sandra Guimarães

 

Quando um bebé nasce ainda não sabe ver. Existem alterações oftalmológicas, a maioria das quais não detectadas normalmente pelos pais, que não permitem que a criança aprenda a ver. Nenhum pai tem dúvidas que um bebé não sabe andar, não sabe falar e que essas competências irão ser adquiridas com a estimulação, mas apenas no “tempo cerebral adequado”. Quer isto dizer que normalmente não vemos uma mãe a colocar o seu bebé de 4 meses em pé para estimular a passada. A mãe sabe à partida que essa aprendizagem será para perto dos 12 meses. Nessa fase preocupa-se em estimular a posição sentada do seu filho. Todos conhecemos os famosos ditos dos nossos avós “ aos seis senta, aos sete adenta”, “ao ano andante aos dois falante”. E é-nos natural ver esse processo acontecer. Mas… e a visão? Como estimulamos? Quando estimulamos? “O meu filho já vê?” é a pergunta mais frequente que me chega das recém-mamãs.

 

Desde o primeiro dia de vida até que a criança seja plenamente capaz de ver há um longo percurso de maturação cerebral que necessita acontecer. Qualquer obstáculo (leia-se, alteração oftalmológica) que exista nesse caminho, irá com muita probabilidade impedir o normal desenvolvimento da visão.

 

E uma criança pode não aprender a ver? Claro que sim. Imaginemos uma comparação fácil de perceber. Uma criança que nasça surda, incapaz de ouvir, não recebe estimulo cerebral sobre os sons e não vai conseguir desenvolver a fala de forma natural. Essa criança não tem nenhum problema nas cordas vocais, mas a verdade é que não vai conseguir falar normalmente porque o seu cérebro não conhece os sons. Ora, com a visão passa-se exactamente o mesmo. Se o cérebro da criança não for estimulado a ver, não vai aprender. Esta doença chama-se AMBLIOPIA, é mais conhecida como olho preguiçoso, e é isso mesmo: uma visão não desenvolvida. É a criança que não aprendeu a ver.

 

A AMBLIOPIA é uma doença do neurodesenvolvimento. É a principal responsável pela maioria dos casos de baixa visão ou cegueira na criança. É uma doença da infância e apenas tratável nesta faixa etária. O sucesso do tratamento pode atingir quase 100%, dependendo da causa. Não sendo tratada na idade pediátrica, acarreta deficit visual, não passível de correcção para o resto da vida.

 

Mas então, quando começa essa aprendizagem? Desde o primeiro dia de vida.

 

Isso significa que devo levar o meu filho ao Oftalmologista Pediátrico logo após o nascimento? Claro que não. Fiquem tranquilos os pais! Nenhum bebé tem alta dum hospital/maternidade sem ser observado por um Pediatra. Nesse exame, o Pediatra descarta as alterações que necessitam de tratamento mais imediato, como por exemplo as cataratas congénitas.

 

O Pediatra sabe ver os olhos do meu bebé? Sim, sabe. Caso haja alterações o bebé é-nos prontamente encaminhado para, se for o caso, podermos programar uma cirurgia nas primeiras semanas de vida, por exemplo.

 

E depois, quando é necessário voltar a fazer um exame oftalmológico? O Pediatra/Médico de Família continuará a observar regularmente o seu filho. Se houver história familiar de problemas oftalmológicos relevantes, se o seu filho tiver algum tipo de doença sistémica ou factor de risco associado (por exemplo, se tiver nascido prematuro) ser-nos-á enviado precocemente, conforme os protocolos científicos existentes. Por outro lado, sempre que surjam alterações de novo, o Oftalmologista Pediátrico é chamado a observar a criança. Por volta dos 3-4 anos o Pediatra/Médico de Família fará um exame mais demorado, em que verá as acuidades visuais do seu filho. Caso não tenha os meios necessários, nessa fase, poderá referenciar para uma avaliação pela especialidade. Para além de todas as observações regulares que foram feitas até aí, esta é uma consulta muito importante. Por volta desta idade (3-4 anos) há que ter a certeza que a visão se está a desenvolver bem, porque até aos 5 anos ainda temos uma boa janela terapêutica para reverter ambliopias, altura a partir da qual o tratamento da ambliopia começa a ser menos eficaz.

 

A que devo estar atento? Há AMBLIOPIAS que dão sinais e a essas devemos estar atentos porque normalmente necessitam de um tratamento mais precoce. Se o seu filho começar com um estrabismo, “a trocar os olhos”, mesmo que seja de forma intermitente, deve consultar um Oftalmologista Pediátrico prontamente. Para além do estrabismo ser uma causa importante de ambliopia, pode também ser um sinal de algo mais grave. Por outro lado, se o seu filho se APROXIMA DA TV, TROPEÇA, parece que tem MEDO DE ANDAR, fale com o seu Pediatra/Médico de Família.

 

Infelizmente algumas crianças são amblíopes e assintomáticas. Não deixe passar os 4 anos sem que as acuidades visuais sejam avaliadas.  Felizmente a maioria das crianças são saudáveis. Em caso de dúvida, fale sempre com o seu Pediatra/Médico de Família.

 

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[fonte: childrenseyecenterorangecounty.com]

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Cem crianças operadas a hérnia inguinal sem cicatriz

Já foi em Junho, mas foram ficando para aqui esquecidas. Estas fotografias assinalam a minha centésima cirurgia laparoscópica para correção de hérnia inguinal em criança. Já aqui escrevi sobre isto: «Coreção da hérnia inguinal sem cicatriz». Aliás, é sobre a minha experiência com esta técnica inovadora que falei hoje em Madrid no Congresso da ESPES (European Society of Pediatric Endoscopic Surgeons).

 

A hérnia inguinal e o hidrocelo comunicante podem ser corrigidos ‘sem cicatriz’, por laparoscopia. Na verdade, usamos a cicatriz ‘natural’ que é o umbigo para introduzirmos uma câmara de vídeo (é a imagem dessa câmara que se vê no monitor da fotografia de baixo). Em Agosto último, um artigo de revisão no Seminars in Pediatric Surgery comprova aquilo que já se suspeitava. A laparoscopia é superior à cirurgia aberta na correção da hérnia inguinal da criança: menor tempo de cirurgia quando a hérnia é bilateral (aparece dos dois lados), menor número de infecções da ferida operatória, menor incidência de atrofia testicular e criptorquidia (testículo subido) após a cirurgia.

 

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Mas para mim a maior vantagem continua a ser capacidade de diagnóstico mais certeiro da laparoscopia. Na minha experiência, até 17% das crianças tinham um diagnóstico errado antes da cirurgia: uns tinham indicação de ser operados de um lado quando na verdade tinha hérnia dos dois lados, outros tinham indicação de ser operado a um lado quando na verdade tinha hérnia apenas do outro lado, outros não tinham hérnia. Evitaram-se cirurgias posteriores e/ou manipulação excessiva do cordão espermático em mais de 17 crianças. É significativo.

 

Não faltará muito para que a laparoscopia seja o novo ‘padrão’ para o tratamento da hérnia inguinal e do hidrocelo comunicante das crianças. Espero…

 

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A equipa cirúrgica, da esquerda para a direita: Enf. Anabela, Enf. Conceição Tavares, Eu, Dr. José Luís Carvalho, Enf. Rosa, Dra. Amélia Glória. A eles (e outros que não estavam cá neste dia), Muito obrigado!

 

 

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