Correr riscos é mais saudável

Há dias, também ouvi um outro podcast interessante. Foi no já conhecido TSF Pais & Filhos. O resumo de um debate sobre Segurança e saúde. Os convidados foram Sandra Nascimento, presidente da APSI (Associação para a Promoção da Segurança Infantil), Carlos Neto, professor e investigador da Faculdade de Motricidade Humana, Hugo Guinote, Diretor da Divisão de Policiamento de Proximidade, da Direção Nacional da PSP e Pedro Dias Ferreira, psicólogo da unidade de pediatria do Hospital de Santa Maria.

O debate foi muito interessante e tocou num tema ao qual sou muito sensível. A Medicina tem identificado cada vez mais riscos e causas para as mais variadas doenças e tipos de acidentes. Isto tem a consequência natural de tornar os pais preocupados e hiper-protectivos. Por outro lado, filhos hiper-protegidos torna-os mais vulneráveis a outro tipo de ameaças. Sabemos hoje que crianças menos expostas à sujidade do mundo exterior torna-as mais susceptíveis a asma e doenças alérgicas. Da mesma forma, crianças que brincam pouco ‘lá fora’ ganham menos destreza física, não aprendem a cair nem aprendem a medir o risco. Por isso, é que colocar os nossos filhos numa redoma pode ser tão ou mais prejudicial do que deixá-los ‘soltos por aí’. Este foi uma ideia com que praticamente todos os oradores concordaram.

 

Em tempos fui entrevistado sobre este tema, pelo Jornal de Notícias. Foi a propósito do livro “Deixe-os comer terra” de Marie-Claire Arrieta e Brett Finlay. O livro tem um título bastante explicativo, mas não é fácil para os pais (nem para os médicos) encontrarem o equilíbrio entre deixar os filhos aventurarem-se pelo meio do lixo e colocar-se em situações perigosas ou tê-los sempre sentadinhos e asseados em frente à televisão. Arriscar faz parte da vida e é uma aprendizagem que as crianças têm que ter. Pequenos riscos trazem pequenos sustos, que avisam a criança para evitar riscos maiores que lhe trariam amarguras maiores. Uma criança que não experimenta o risco pequeno, pode num dia que se apanhe em liberdade não saber medir e atirar-se para um risco muito maior, com consequências muito maiores.

 

Há muito que defendo a teoria do ‘risco controlado’. Ou seja, sempre com um olhar vigilante, ir deixandos os filhos experimentar uma aventuras mais arriscadas. Depois, vamos percebendo o que ela consegue ou não consegue fazer. Se aguenta ou não a queda que pode vir a seguir. No meio de alguns arranhões e muito choro, lá vão aprendendo a cair e a levantar, vão criando resistência e, com o incentivo certo, a tão necessária resiliência.

 

[MM a descer uma rampa a alta velocidade sem capacete; vídeo disponível no instagram]

 

 

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A minha vida de deputado

Pode até parecer que sai um bocadinho das temáticas deste blogue, mas verão que vem cá dar. Em Novembro do ano passado, candidatei-me e acabei por ser seleccionado para intregrar o Health Parliament Portugal (HPP) como ‘deputado’. O HPP é uma iniciativa da Jansen, da Microsoft, do Expresso e da Universidade Nova de Lisboa, com o Alto Patrocínio da Presidência da Assembleia da República. A ideia consistiu em juntar “jovens” (entre aspas porque era dos 21 aos 40 anos), para que, num ambiente parlamentar, discutissem algumas políticas de saúde. O trabalho foi organizado em comissões. Eu fiz parte da Comissão das Tecnologias de Informação.  A nossa comissão era muito multifacetada. Havia médicos, gestores, assessores de comunicação, psicólogos e farmacêuticos. Trabalhámos todos afincadamente. Inclusivamente, aproveitámos o trabalho na comissão para fazermos um trabalho de investigação em conjunto. Se são subscritores da minha newsletter ou me seguem no facebook devem ter sido persuadidos a preencherem um inquérito sobre literacia digital em saúde, que servia este propósito.

 

[Grupo de deputados do Health Parliament Portugal]

 

A experiência de participar no HPP foi gratificante. Aprendi muito. Talvez mais do que consegui contribuir. Cada comissão organizou as suas ideias e fez as recomendações que foram votadas por todos os deputados em plenário. O resultado deu origem a um livro que está disponível online. Uma ideia genérica que retive, e a que tomo como mais motivante, é que, apesar das diferenças ideológicas dos deputados envolvidos, houve sempre uma ampla base comum que tornou possível fazer propostas concretas. Talvez por isso, o Ministério da Saúde quis continuar o trabalho das comissões convidando-as para audiências e grupos de trabalho. De facto, dentro do Ministério nota-se também essa ampla base comum de consenso que se traduz num trabalho continuado. Independentemente dos governos que saem e ficam, parece haver um fio condutor que mantém a ‘máquina’ coerente.

 

[A Comissão de Tecnologias de Informação, no Primeiro Plenário (sede da Microsoft, em cima) e no Segundo Plenário (Fundação Gulbenkian, em baixo)]

 

E, para terem uma noção da evolução que têm tido as tecnologias da informação na saúde, basta visitar o portal do utente do SNS. Lá cada pessoa pode colocar os seus contactos de emergência, história pessoal de doenças, o testamento vital, ou outras informações que ache importante estar disponível a quem o atende num serviço de urgência. Também pode marcar consultas, ver o estado de inscrição para cirurgias, o boletim de vacinas e muito mais.  É muito útil para quem atende e é atendido. Por isso, se ainda não se registou, faço-o quanto antes.

 

Sobre o trabalho da comissão que integrei, dentro das tecnologias de informação, focámo-nos mais nos dados em saúde, na forma como estes são gerados, guardados e partilhados. Na prestação de cuidados de saúde, há colheita de dados constante: do peso e altura aos resultados de análises sanguíneas, passando por observações médicas, relatórios de meios complementares de diagnóstico, etc. Para o doente/utente é importante saber (1) que eles estão guardados em segurança; (2) que, quando estes dados são partilhados entre profissionais, esta partilha seja feita de forma segura e fiável e (3) que, quando eles são necessários, esses dados estarão efetivamente disponíveis. Ninguém quer que as suas análises venham trocadas, nem quer que os seus relatórios médicos sejam vistos por quem não deve. Também ninguém quer a andar a repetir exames, só porque as imagens não estão disponíveis. Fizemos várias recomendações nesta área.

 

Também, se se pede cada vez mais destreza digital aos profissionais de saúde  e aos utentes para marcarem consultas online, pedidos de receita sem papel, etc., achámos que era importante avaliar a literacia dos utentes do SNS. Alguns dos nossos resultados preliminares foram publicados. Perto de 90% dos inquiridos, disse utilizar com frequência a internet para procurar informação sobre saúde, mas apenas 20 por cento considera a informação que encontra credível. A credibilidade e a quantidade excessiva de informação foram os principais problemas apontados por 78% e 38% dos participantes, respetivamente. Mais, o nosso estudo revelou ainda que metade dos utentes acha que a informação transmitida pelos médicos nem sempre é percetível e esclarecedora. Claramente, é preciso melhorar a forma como utentes e profissionais comunicam e lidam com as plataformas digitais.

 

[Comissão das Tecnologias de Informação reunida com o Ministério da Saúde]

 

Resumindo, até porque podem ler na íntegra o relatório (e aconselho mesmo que o façam), trabalhar nesta comissão levou-me a aprender termos jurìdicos, a rever alguns conceitos da ética médica, descobrir métricas e outputs financeiros, descobrir muita da informática escondida nos nossos processos e até ler sobre blockchain. Aprendi imenso. Adorei a experiência e, até porque existe a vontade do Ministério da Saúde de continuar a ouvir-nos, espero poder continuar a contribuir com  a minha opinião. As políticas de saúde dizem respeito a todos. Para mais, é um dos legados mais importantes que deixamos aos nossos filhos: a sua própria saúde.

 

 

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Como ensinar uma criança a engolir comprimidos?

Há uns meses, o JM esteve doente. Como tinha que tomar um medicamento cuja dose só estava disponível em comprimidos, tentámos desfazê-los com água. O sabor era integrável e a sensação dos grãos na garganta despertavam-lhe o vómito. Alternativa? Aprender a engolir comprimidos.

 

Como bom pai, procurei no Doutor Google. Swallow, pills, children, search. Este artigo foi o mais útil que encontrei: Teaching your child how to swallow pills. Achei que ajudaria mais alguns se traduzisse e acrescentasse o que aprendi com as tentativas do JM.

 

  1. Mantenha a calma e incentive a criança sem entrar em comparações. Cada criança é um caso único. Não adianta comparar com outras crianças da mesma idade ou mais novas que já conseguem engolir comprimidos. Demonstre confiança nas suas capacidades. É normal que não consiga à primeira, nem à segunda, nem à terceira tentativa. Por vezes, demoram semanas até conseguir. Mantenha a calma e transmita calma.
  2. Comece com coisas pequenas e saborosas (por exemplo, uma migalha/pepita de chocolate) e vá aumentando de tamanho até conseguir um volume parecido com o comprimido. Reforço: é normal que não consiga à primeira, nem à segunda, nem à terceira tentativa. Mantenha a calma e reforce a confiança do pequeno.
  3. Sente a criança de costas direitas e cabeça virada para a frente. Elevar a cabeça ‘para empurrar’ pode parecer natural, mas dificulta a deglutição.
  4. Ofereça uns golinhos de água primeiro e peça para tentar engolir de uma só vez bocados grandes de água.
  5. Ponha o comprimido na língua da criança e peça para repetir o acto de beber água como tem feito até agora. Algumas crianças preferem beber com palhinha, porque isso as distrai do comprimido.
  6. Se a criança conseguiu engolir o comprimido, elogie. Se não conseguiu, elogie a tentativa. É preciso coragem para aprender coisas novas. Pode tentar novamente. Mas, se a criança está nervosa, faça uma pausa. Mantenha a calma. Tente mais tarde.

Esta metodologia resultou cá em casa. Admito que existam casos mais complexos. Para esses, sugiro uma visita a este website do Cohen Children’s Medical Center, onde são dadas mais dicas mediante as dificuldades específicas da criança.

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Evitar internamentos das crianças é também ser minimamente invasivo

Há muito que defendo que cirurgia minimamente invasiva não é só fazer incisões pequenas. Para além de evitar cicatrizes, minimizar a dor e os impactos fisiolǵicos de cada cirurgia, é importante reduzir a invasão, seja ela física, psicológica e (porque não) social. Assim, percebe-se facilmente que nós, cirurgiões pediátricos, seremos menos invasivos para as nossas crianças quanto menos vezes a as tivermos que internar ou quanto menor for o tempo do internamento (quando ele tem mesmo que ser). Daí a tentativa cada vez maior de transformar procedimentos cirúrgicos em cirurgia de ambulatório, ou seja, em cirurgia ‘de ir no próprio dia para casa’.

 

Apesar de não ser um conceito novo, a cirurgia de ambulatório para crianças enfrenta ainda algumas restrições/receios de alguns profissionais de saúde. Isso é particularmente visível na cirurgia do pescoço, pelo medo de complicações da via aérea. Mas, num hospital de crianças no Porto onde tive o prazer de me formar, a cirurgia de ambulatório era uma prioridade. Há muitos anos que no ‘extinto’ Hospital de Crianças Maria Pia fazia cirurgia cervical com saída no próprio dia. Isso representava conforto para as crianças, que podiam dormir em casa, no conforto da sua cama.

 

Esse conhecimento foi passado para o Centro Materno Infantil do Norte, onde os profissionais do Hospital Maria Pia se integraram. Cientes de que a cirurgia do pescoço em crianças continua a ser feita em regime de internamento na maioria dos hospitais (portugueses e estrangeiros), decidimos publicar a nossa experiência com uma das cirurgias de pescoço mais complexas: operação de Sistrunk para excisão do quisto do canal tireoglosso (um caroço no pescoço). Mais, para efeitos de ‘prova’ de que não havia diferença em termos de resultados ou complicações, quando as crianças eram operadas em regime de ambulatório ou em regime de internamento, fizemos um estudo comparativo. Esse estudo foi aceite para publicação no International Journal of Pediatric Otorhinolaryngology de Maio deste ano, pelo que a palavra vai se difundindo pela comunidade médica.

 

 

Results: A total of 36 patients were included, with age ranging from 1 to 14 years (mean 6.3 years). Sixteen patients underwent day surgery, and 20 stayed overnight (with less than 24 h postoperative discharge). The main reason to stay overnight was distance (greater than 60 km or 1 h driving) between the hospital and patient’s residence. All patients had histopathological confirmation of the diagnosis. None of the patients had a drain placed intraoperatively. There was only one readmission at 48 h postoperative; a patient who underwent day surgery came back with cervical edema, which resolved with non-operative treatment. Short-term complications included post-operative local wound infection (8,5%) and hematoma (2,9%), none of which required surgical treatment. Conclusions: Sistrunk procedure without drain placement is safe and can be performed in an outpatient setting.

 

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Porque é que não fiz a recolha de células estaminais dos meus filhos?

É muito frequente perguntarem-me se aconselho ou não a recolha de células estaminais do cordão umbilical. Amigos e leitores ‘grávidos’ interpelam-me com este assunto sempre que chega à altura de desembolsar umas centenas de euros (não estou a par dos preços) pela promessa da preservação das células estaminais, que um dia poderão salvar o seu bebé de um problema de saúde grave.

 

Antes de entrar na polémica, esclareço que não tenho razão nenhuma para desaconselhar a colheita das células do cordão umbilical. Não prejudica o bebé em nada. Agora, que destino dar a essas células é outra questão? Valerá a pena alugar espaço num congelador durante anos, com o desejo de que nunca venham a ser utilizadas? Ou devemos doá-las à ciência? A decisão cabe única e exclusivamente aos pais e eu geralmente relato o que eu fiz quando cheguei à altura de dar destino às células do cordão umbilical dos meus filhos.

 

Convém esclarecer que a tecnologia de recolha e de preservação de células estaminais continua ainda com algumas falhas: (1) não existe nenhuma garantia que a amostra recolhida na maternidade seja viável; (2) não há estudos suficientes que garantam que as células estarão em condições de ser usadas, quando/se forem descongeladas (principalmente, se se passarem vários anos desde a recolha); (3) as doenças da infância que potencialmente beneficiam do tratamento com estas células são raras e há muito poucas provas da sua aplicação autóloga (ou seja, no próprio doador); (4) mesmo nestas doenças, as células estaminais não são a primeira linha de tratamento (nem segunda, nem terceira opção…); mas sim tratamentos de último recurso e experimentais, quando tudo o resto já falhou. Pesando tudo, a probabilidade do nosso filho beneficiar deste investimento é infinitamente pequena. E esta ínfima possibilidade é muitas vezes o único argumento para a criopreservação em bancos privados. Acresce ainda que, ao preservar as células num banco privado, podemos perdê-las em caso de insolvência do mesmo.  

 

Por outro lado, se todos os pais doassem as células estaminais do cordão umbilical para um banco público, as células seriam devidamente estudadas, armazenadas e utilizadas mediante a sua qualidade e utilidade. Ou seja, algumas seriam colocadas à disposição da comunidade científica para os tais tratamentos experimentais, outras (de menor qualidade ou já a passar de ‘validade’) podem ser utilizadas em laboratório para melhorar o conhecimento sobre estas técnicas. Resumindo, os nossos filhos só vão beneficiar das potencialidades das células estaminais se criarmos e alimentarmos este banco público.

 

Foi com esta lógica que, em 2010, aquando do nascimento do JM, doámos as células do cordão umbilical à Lusocord. Na altura, os pais é que levantavam o kit de recolha no Centro de Histocompatibilidade do Norte e o devolviam depois do parto. Logo, qualquer pai ou Mãe podia doar as células do cordão ao banco público.

[JM com 11 meses, na entrega oficial de Certificados “Sou Dador desde que nasci” da Lusocord, na Ordem dos Médicos]

 

Entretanto, alguns percalços da gestão do banco fizeram com que a recolha, que antigamente podia ser feita em qualquer maternidade, passasse a ser feita apenas no Hospital de São João (Porto), numa primeira fase, e posteriormente alargada ao Hospital Pedro Hispano (Matosinhos), na Maternidade Júlio Dinis (Centro Materno-Infantil do Norte) e no Hospital Prof. Doutor Fernando da Fonseca (Amadora-Sintra). A grande diferença é que não é possível qualquer pai ou Mãe levantarem o kit de recolha e o devolverem. Logo, bebé que não nasça num destes quatro hospitais não pode doar as suas células para o banco público. Como os meus últimos dois filhos não nasceram em nenhum destes hospitais, não fizemos a recolha das células do cordão umbilical.

 

A Lusocord, entretanto baptizada de ‘Banco Público de Células do Cordão Umbilical’ tem crescido muito lentamente. Não chegou às 500 amostras em 7 anos. «Especialistas dizem que silêncio do Estado sobre criopreservação das células estaminais é cedência aos bancos de criopreservação privados.». Sem querer entrar em teorias de conspiração, acho incrível haver tantos pais a querem ajudar os seus filhos, e os filhos dos outros, e haver tão pouca publicidade ao banco público. Cabe a nós, médicos e pais, passar a palavra.

 

[Antiga publicidade da Lusocord, porque do novo BPCCU nem vê-la…]

 

Mais informações sobre o Banco Público de Células do Cordão Umbilical no website do Instituto Português de Sangue.

 

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Como explicar as tragédias às crianças?

Numa altura em que as televisões estão inundadas de notícias de catástrofes naturais, terrorismo e tragédias humanas várias, a revista JAMA Pediatrics publicou uma informação para pais muito útil. Como pais, é importante termos estratégias para explicar estes acontecimentos às crianças que são expostas a estas desgraças, seja através das notícias, seja por serem personagens secundárias das mesmas.

 

Apesar da explicação ter que ser moldada a cada criança e a cada evento em particular, existe uma estratégia base. O ponto central é a comunicação. Independentemente da idade da criança é preciso ouvir as perguntas e as dúvidas das criança e perceber o que ela já sabe sobre o assunto. Fazer algumas perguntas para a conversa se ir desenrolando naturalmente. Depois, é preciso transmitir tranquilidade à criança, explicando que nós adultos estaremos sempre presentes para os ajudar e que é normal eles se sentirem preocupados/apreensivos com as notícias que ouvem.

 

As crianças mais pequenas podem sentir-se mais inseguras e terem dificuldade de separar o real da fantasia. Faz sentido tentar protegê-las das notícias das televisões e das redes sociais. E, na inevitabilidade de lhes ter que colocar a par duma notícia traumática, é preferível fazê-lo através das nossas palavras do que expondo-os a imagens chocantes.

 

As crianças mais velhas e os adolescentes terão acesso às imagens mais tarde ou mais cedo, pelo que mais vale vê-las com eles e estar preparado para as muitas questões que possam surgir: o que causou, o que vai acontecer às pessoas, como podemos protegê-los, etc. Se possivel, podemos até ver as notícias antecipadamente, para nos preparamos para as questões.

 

Estratégias para ajudar as crianças a superarem uma tragédia:

  • manter a calma (‘ser uma presença de calma’). É normal um adulto chorar, mas se fôr demasiado emocional considere sair da frente das crianças;
  • transmitir segurança. Considerar desenhar com os filhos um plano de emergência, caso algo semelhante à tragédia em causa aconteça;
  • manter a rotina. Manter as horas normais das refeições e as tarefas rotineiras como banhos e trabalhos de casa, ajuda a dar uma sensação de normalidade;
  • passar mais tempo juntos. Reforça a sensação de segurança;
  • encoraje as crianças a falar das suas emoções.
  • ajudar a comunidade. Arranjar formas de ajudar as comunidades e as famílias afectadas torna-nos mais úteis.

[fonte: abc.net.au]

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O que levei e o que trouxe de Moçambique

Alguns saberão que estive em Moçambique. (Foi já em Julho, mas um bug informático manteve-me impedido de escrever no blogue. Bloqueio resolvido há minutos.) Tive o privilégio de integrar a 10ª missão humanitária da Health4Moz. A Health4Moz é uma Organização Não-Governamental para o Desenvolvimento que nasceu dum pedido de ajuda da Universidade de Lúrio (Nampula) para melhorar a formação dos seus estudantes de Medicina. Com quatro anos de existência, a Health4Moz já expandiu a sua acção a quase todas as regiões de Moçambique, mas mantém-se focada no apoio à formação pré- e pós-graduada dos profissionais de saúde. Acreditamos na lógica antiga que, mais do que dar o peixe, é importante ensinar a pescar.


Como cirurgião pediátrico e um bocadinho nerd informático, achei que poderíamos inovar. Com a ajuda do departamento de e-learning da Universidade do Porto e com a colaboração dos colegas do Serviço de Cirurgia Pediátrica do Centro Materno-Infantil do Norte, fizemos o primeiro curso de Introdução à Cirurgia Pediátrica, dividido em três partes. Uma primeira parte teórica foi leccionada à distância através do moodle.up.pt, entre Janeiro e Junho deste ano. A segunda parte consistia num trabalho de campo, em que os alunos preencheram um inquérito sobre as necessidade de cirurgia pediátrica a uma família da região. A terceira parte decorreu na semana de 10 a 14 Julho. Eu e a Dra. Fátima Carvalho (minha Diretora de Serviço) fomos à Beira e a Nampula dar as aulas práticas: discussão de casos clínicos, técnicas de sutura e suporte básico de vida em trauma. Formámos 72 alunos e médicos recém-formados de duas faculdades diferentes. Para projecto-piloto não está mau e ficámos com a vontade de repetir e até expandir o projecto.

Prof. Doutora Carla Rêgo, presidente da Health4Moz.

 

Discussão de casos clínicos na Beira.

 

Curso de feridas e suturas em Nampula.

 

Curso de Suporte Básico de Vida em Trauma, em Nampula.

Uma vez em Moçambique, aproveitámos para visitar os hospitais da Beira e de Maputo (onde fizemos escala para regressar para Portugal). Eu nunca tinha ido a Moçambique, mas tinha-me preparado para aquela realidade. Há falta de médicos e de outros profissionais de saúde. Numa população 29,5 milhões de Moçambicanos (metade dos quais abaixo dos 18 anos), existem 2 cirurgiões pediátricos (+ 2 internos em formação) em Nampula e 2 cirurgiões pediátricos ‘emprestados’ pela Cooperação Cubana (um na Beira e outro em Nampula). Contas por alto, dá um cirurgião pediátrico por 3,6 milhões de crianças. Em Portugal, (repito que são contas por alto) temos um cirurgião pediátrico por 25 mil crianças (144 vezes mais!!!).

Formandos e formadores na Beira.

 

Formandos e formadores em Nampula.

Mas também existe muita falta de recursos técnicos. Coisas simples macas de transporte, ventiladores para lactentes e recém-nascidos, alimentação parentérica, entre muitos outros exemplos, não existem. Outras necessidades mais correntes como anestésico locais, antibióticos, materiais de penso esgotam com frequência. No entanto, diz-nos quem lá vive que se nota uma maior estabilidade política e mais crescimento económico. Isto, aliado ao empenho na formação de muitos médicos moçambicanos (a constituição de mais faculdades medicinas são reflexo disso), fazem-me acreditar que a qualidade vida em geral e a qualidade da Medicina em particular de Moçambique acabarão por melhorar.

Na minha breve visita a Moçambique, encontrei alunos muito interessados, com grande capacidade de progressão e que se empenharão em melhorar o seu próprio país. Posso ter perdido algum tempo em que poderia estar com a família e alguma actividade privada, mas ganhei muito mais: pela experiência pedagógica, pelas amizades que por lá fiz, pelo conhecimento no terreno de um país que sempre desejei ajudar. Estou mortinho por lá voltar.


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A ciência que não existe por trás do fidget spinner

Vulnerável às febre infantis, a nossa casa (como tantas outras) foi infectada pelo último virus da moda: o fidget spinner. Fidget refere-se ao movimento rápido e repetitivo com as mãos (exemplo, ligar e desligar um botão ou colocar e tirara a tampa duma caneta). Neste ‘brinquedo’ em concreto, fidget refere-se ao acto repetitivo de fazer girar (spin) um trângulo sobre um eixo de rolamentos. Para uma explicação mais científica do que esta recomendo um vídeo do Ricardo Araújo Pereira , já que esta é toda a ciência que se pode extrair deste novo brinquedo.

 

Explico. A imprensa tem anunciado este brinquedo irritante como um bálsamo para a ansiedade infantil. Exemplos de títulos: «Conheça o dispositivo para ajudar crianças com autismo que virou febre nas escolas (BBC)», «Brinquedo da moda com funções terapêuticas até já tem revista (DN)». Mas basta uma investigação superficial na Internet para descobrir o equívoco: «University of California, Davis professor Julie Schweitzer’s study, which was published in the June 2015 issue of Child Neuropsychology: A Journal on Normal and Abnormal Development in Childhood and Adolescence and publicized in The New York Times, is the one many people point to in their defense of fidget tools. In the study, Schweitzer found that letting hyperactive children fidget allows them to concentrate better. “This has become the chapter and verse for evidence that [fidget tools] help kids with ADHD,” explains Palladino. (RealSimple

 

Este estudo publicado em 2015 na revista Child Neuropshycology e que é citado por muitas fontes, deve ter sido usado pelos fabricantes dos fidget spinners para publicidade mas nunca lido pelos próprios autores. E bastava ler: «While there are currently tools on the market (e.g., fidget toys) that allow individuals to fidget without disrupting others, there has not been extensive research on their efficacy. Our findings also suggest that limiting movement in children with ADHD may potentially be detrimental to their cognitive performance.» Ou seja, restringir os movimentos de crianças com distúrbios de hiperactividade défice de atenção (ADHD) é prejudicial mas não há até hoje estudos que provem a a eficácia dos brinquedos de fidget.

 

Logo, não há ciência que apoie estes brinquedos como forma de terapia. São apenas brinquedos. É só isso.

 

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Os medicamentos são apenas uma parte do tratamento da asma

O Dr. Egas Moura é um dos pediatras com quem trabalho há mais tempo. Fez o enorme favor de me escrever um texto para o qual não me sentia minimamente preparado mas que era uma das requisições habituais dos leitores aqui do blogue. O Dr. Egas é pediatra no Centro Clínico da Maia e na Clínica Médica dos Canaviais (Vila Nova de Gaia). Tem dois filhos já adultos, um rapaz com 21 anos e uma rapariga com 22 anos. Começou recentemente a escreve num blogue com informação muito útil para pais: maismaismedicina.

 

Asma Brônquica

Egas Moura

 

A asma é a doença (inflamatória) crónica das vias aéreas inferiores mais comum em idade pediátrica em todo o mundo. A asma está associada a obstrução variável do fluxo aéreo e híper reactividade brônquica. Apresenta-se com episódios recorrentes de sibilância, que pode ser traduzida em pieira, tosse, dispneia e aperto torácico.

A prevalência na população infantil é de cerca de 15%. No entanto, as doenças alérgicas em geral e, em particular, a asma têm vindo a aumentar em número e gravidade nos últimos anos. O controlo dos sintomas vigentes e o risco futuro devem ser os objectivos clínicos.

 

Factores de risco

Existem factores hereditários e factores desencadeantes. Relativamente aos primeiros, verifica-se o dobro de incidência nas crianças descendentes de famílias com antecedentes alérgicos (rinite, conjuntivite, eczema, alergias alimentares, etc.). Os factores desencadeantes das crises podem ser variados, nomeadamente os alergénios (como os procedentes de ácaros do pó, pólenes, fungos e pelo dos animais), os agentes irritantes (como o fumo do tabaco e da lareira e os sprays), as infecções respiratórias (virais), o exercício físico, as emoções fortes, as substâncias químicas irritantes e alguns fármacos.

 

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[fonte: guiamedica.hn]

 

Clínica

Muitas crianças com sibilância na primeira infância resolvem a sua patologia. No entanto, os lactentes com sibilância recorrente têm um risco aumentado de desenvolver asma persistente, e as crianças atópicas têm maior probabilidade de manter a sibilância e desenvolver asma persistente. A gravidade e frequência dos sintomas durante os primeiros anos de vida e a presença de atopia estão fortemente relacionados com o prognóstico.

Clinicamente, exprime-se por episódios de dispneia (falta de ar), de pieira (chiadeira) com dificuldade respiratória, tosse e aperto torácico. É importante, no entanto, pensar que nem tudo o que pia é asma, sendo, por isso, necessário excluir outras doenças que causam dificuldade respiratória.

Para diagnosticar asma, deve confirmar-se a presença de sintomas recorrentes de obstrução reversível das vias aéreas, e excluir outras patologias.

As crises podem ter sintomas prodrómicos, que podem ir desde o prurido (nasal, mentoniano, orofaringe ou ocular), lacrimejo, obstrução nasal, espirros – crises esternutatórias, tosse seca e eventualmente o agravamento do eczema atópico pré-existente.

Numa etapa seguinte a doença pode manifestar se com os sinais de dificuldade respiratória (bradipneia expiratória, dificuldade em deitar o ar para fora), respiração sibilante audível, bloqueio do tórax em inspiração forçada, tosse seca irritativa e sensação de opressão torácica. A criança pode adoptar a posição de sentada inclinada para a frente, apoiada nas mãos (posição que permite uma maior eficácia dos músculos acessórios da respiração). Esta sintomatologia pode se acompanhar de diminuição da actividade física que nos casos extremamente graves pode levar à incapacidade de falar com discurso entrecortado e lento.

Os sintomas ocorrem mais habitualmente à noite ou no decurso de actividade física e/ou exposição a alergénios (conhecidos ou desconhecidos). As crises variam de frequência dependendo da gravidade do quadro e da eficácia terapêutica.

Para além da clínica, existem exames auxiliares no diagnóstico da asma, que compreendem a radiografia pulmonar, os chamados “marcadores de alergia” e o estudo funcional respiratório.

A asma pode ser diagnosticada em qualquer idade, embora em lactentes e crianças mais jovens o diagnóstico possa ser inconclusivo durante algum tempo, devido a uma maior frequência de quadros de obstrução brônquica semelhantes à asma.

 

Tratamento

A abordagem da asma inclui todos os elementos necessários para atingir o controlo: Educação do doente e dos seus pais; Identificação e evicção de desencadeantes; Uso de terapêutica apropriada com um plano bem estruturado (incluindo imunoterapia específica em casos seleccionados); Monitorização regular.

A prevenção dos sintomas, para além de diminuir a necessidade de recorrer aos serviços de urgência e de internamento, permite que a criança tenha uma actividade diária normal. No tratamento da asma a longo prazo a via inalatória deve ser preferida, sendo necessária uma participação activa por parte dos pais ou educadores da criança.

Esta via tem vários benefícios, como sendo um início de acção mais rápido, permitir dosagens de medicamentos mais baixas e ter menos efeitos secundários. A imunoterapia (vacinação) por via oral ou através de injecção subcutânea é um processo lento de imunização que consiste na administração de doses crescentes do alergénio ao qual o indivíduo é sensível, induzindo o chamado “estado de tolerância clínica” face ao alergénio administrado. Este tratamento deve ser sempre realizado sob vigilância médica e habitualmente mantém-se por 3 a 5 anos.

 

Que conselhos daria aos pais de uma criança asmática?
É assim importante lembrar que o tratamento farmacológico é apenas uma parte do tratamento da asma e que é importante evitar factores desencadeantes como tabagismo, poluição atmosférica, infecções respiratórias assim como evitar alergénios como ácaros, pelos e penas de animais domésticos, pólens e determinados alimentos. Não esquecer que a educação do doente asmático envolve sempre a família e que se deve tentar conseguir a melhor qualidade de vida para a criança.

 

infografia-asma-2016

O Quiro está giro

Escrevo em trânsito, entre Tisimoara e o Porto. Quem me lê há mais tempo sabe que sou um grande adepto da cirurgia menos invasiva possível para as crianças. Talvez a técnica que as pessoas mais identifiquem como cirurgia minimamente invasiva seja a laparoscopia, isto é, a ‘cirurgia pelos furinhos’. Tenho organizado e participado em vários cursos de laparoscopia. Mas, esta foi a primeira vez que fui convidado a ser formador num curso da EUPSA (Associação Europeia de Cirurgiões Pediátricos), no estrangeiro. O curso foi muito giro, com alunos muito interessados e acho que não deixei a representação portuguesa mal vista.

 

A propósitos de treino e cirurgia laparoscópica. Acho que deveriam experimentar esta aplicação: Quiro. Trata-se de uma aplicação para dar os primeiros passos em cirurgia endoscópica. Os primeiros exercícios são grátis.

 

Na cirurgia laparoscópica, o cirurgião não tem acesso directo ao que está a acontecer no interior do doente. A imagem é dada através de uma câmara de vídeo e projectada num monitor. Mais, enquanto os instrumentos cirúrgicos que entram pelos ‘furinhos’ são comandados pelo cirurgião, a câmara é comandada pelo ajudante. Este cirurgião ajudante funciona como os olhos do cirurgião durante todo o procedimento. Como devem imaginar, o primeiro passo de qualquer curso de laparoscopia é aprender a comandar a câmara. Com o Quiro basta ter uma caneta para o fazer. Experimentem, porque está mesmo giro.

 

 

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