Tê-los no sítio I

Não é tão simples como parece. Os testículos dos meninos nascem dentro da barriga e têm que percorrer um longo caminho até às respectivas bolsinhas. É um percurso que é feito através de um canal na virilha, chamado canal inguinal, mais propriamente dentro de uma bainha muito fina (o canal peritoneo-vaginal). 3% dos meninos não têm um dos testículos (ou os dois) completamente descido ao nascimento, isto é, sofrem de criptorquidia (= testículo escondido) ou testículo não descido (undescendent testis). Até aos 9-12 meses de idade, o testículo pode ainda descer, pelo que pelo ano de idade, apenas 1% dos lactentes terão criptorquidia. Até esta idade o testículo deverá ser corrigido cirurgicamente, porque o testículo poderá sofrer alterações, tornando-se infértil ou (a muito longo prazo) dar origem a um tumor maligno. A cirurgia chama-se orquidopexia (= fixação do testículo).

[fonte: rch.org.au]

Normalmente, a bainha do canal inguinal por onde desce o testículo fecha por altura do nascimento, no entanto ela persiste aberta nos casos do testículo não descido. Para além da fixação do testículo é necessário encerrar esta persistência do canal peritoneo-vaginal, pois, para além de limitar o movimento do testículo, pode condicionar o aparecimento de uma hérnia, ou seja, uma porção do intestino pode ‘prender’ dentro deste canal. É por esta razão que na reparação cirúrgica do testículo não descido (orquidopexia), existirão sempre pontos no escroto e na região inguinal (virilha). Falarei de hérnias (ou forças como já muitas vezes ouvi chamarem-lhes) num futuro post.

Mas existem casos em que o testículo não se encontra. São os chamados testículos impalpáveis, pois não se palpam nos testículos, nem no canal inguinal. Nestes casos, é provável que o cirurgião pediátrico sugira uma laparoscopia diagnóstica, isto é, a introdução de uma câmara de vídeo pelo umbigo para procurar o testículo desaparecido. Encontrando-se, ele terá que ser fixo na bolsa escrotal (em uma ou duas cirurgias). Casos há em que o testículo não se formou ou atrofiou durante a descida. Nestes casos, colocar-se-á uma prótese pelo efeito estético.

Não faça

Na minha vida profissional, fui (e continuo a ser) testemunho da força dos pais de meninos e meninas com deficiência. Entre o que é doença física e doença mental, a deficiência tem vários espectros e a determinação destes pais excede o que poderíamos à partida esperar do ser humano. Hoje comemora-se o Dia Internacional da Pessoa com Deficiência. É um convite à reflexão sobre como pequenos gestos nossos poderiam melhorar (e muito) a vida daqueles que têm mais dificuldades a vivê-la. Para início de conversa, comecemos pelo mais fácil: coisas para não fazer, isto é, pequenas omissão que melhorariam (e muito, outra vez) a vida de quem tem deficiência e daqueles que os assistem.

Primeiro, não estacione em cima dos passeios nem das passadeiras. São só 5 minutos (que  nunca são), mas podem custar uma eternidade para quem não consegue ultrapassar o obstáculo e terá que procurar (sabe-se lá como) percurso alternativo.

Segundo, saia da frente. A pessoa com deficiência tem sempre prioridade. Não é preciso ter uma placa indicativa na caixa do supermercado. Para além da ansiedade acrescida, aquela espera pode significar uma ida à casa de banho que se perde (literalmente).

Terceiro, não crie mais obstáculos. No seu dia-a-dia, seja trabalho ou lazer, procure criar o menor número de obstáculos possível. A burocracia é obstáculo. Lixo no chão é obstáculo. Armariozinhos no caminho, decoração acessória, balcões altos, música demasiado alta, entre outros, são todos obstáculos. Não faça. É um favor que nos faz a todos, mas principalmente a quem é deficiente.

[fonte: idpwd.com.au]

Pombinhas

E porque ouvi algumas reclamações sobre o facto de estar a dar muita primazia aos assuntos dos rapazes, este post refere-se a um problema comum nas raparigas: a coalescência dos pequenos lábios. Trata-se de uma obstrucção (quase sempre) parcial da vagina e/ou da uretra feminina por ‘fusão’ dos pequenos lábios. Esta fusão é fruste, resultad de aderências frágeis entre os pequenos lábios de uma lado e do outro dos genitais femininos. É uma doença benigna, que se pensa resultar do ambiente pobre em estrogéneos associado a inflamação local, na infância (mais apartir dos 12 meses de idade). Situação essa que a criança só verá resolvida pela idade da adolescência. Até lá, a coalescência pode ser causa de infecções urinárias, inflamação local, prurido e má higiene local por urina que se acumula no seu interior, muito à semelhança do prepúcio (dos rapazes) que não retrai.

[fonte: rch.org.au]

O que fazer? Desfazer estas aderências. Mas é normal os pais terem receio de magoar a menina. Aplicar um creme corticóide localmente poderá ser a solução, pois diminui a inflamação e cria um ambiente rico em estrogéneos, levando à libertação das aderências. Se não resolver, a secção das aderências pode ser feita pelo cirurgião pediátrico. Nos casos mais complicados ou de crianças mais velhas poderá ter que ser feito sob anestesia geral (com a criança dormir). Em caso algum, dever-se-á fazer um descolamento traumático da coalescência. Primeiro, porque seria uma agressão genital que a criança poderia demorar a ultrapassar. Segundo, o mais provável seria os pais não conseguirem voltar a tocar na região, nem para aplicar o creme, por falta de colaboração da menina, pelo que voltaria tudo a ‘colar’ outra vez.

«O Jesus é filho do Pai Natal?»

Esta pergunta, feita há dias pelo JM, foi o sinal de alarme pare reunirmos o “Concílio Magno” cá de casa. Este ano é o primeiro em que o JM parece ter a plena percepção que está a viver o Natal. Com quase 3 anos, começa a perceber que existe uma grande azáfama  no mundo dos crescidos para a preparação desta festa. Mas tanta informação desconexa, obrigou-nos sentar à mesa e esclarecer a cabeça do rapaz.

Já o disse aqui. Não gosto do Pai Natal. Seja como fôr, não sou radical. Não destruirei as fantasias da criança e até posso alinhar com elas. Ser pai é também isso. O Pai Natal continuará a trazer presentes aos meninos que se portam bem (JM incluido), mas as visitas serão previamente agendadas em local a combinar: a escolinha, o shopping, a casa da bisavó. Sendo esta última de longe a minha favorita, pois o Pai Natal encarna num dos tios que bebeu para além da conta.

Mas cá em casa, o Natal foi e será uma celebração do nascimento de Jesus, da Família e do Amor. Julgo que pelo menos estas últimas se aplicam a todas as casas, mesmo as nãocristãs. Sendo assim, no dia 24 de Dezembro, a família trocará presentes, sinal do apreço que temos uns dos outros. No dia 25 de manhã, haverá uma bicicleta para o JM, trazida pelo o Menino Jesus, que acaba de nascer. Haverá o presépio e a árvore com a estrela que guiará os Reis Magos.

[fonte: orbita-bicicletas.pt]

Pilinhas III

Mais umas dicas, em relação à retracção prepucial. Muitas mães referem que não controlam o que o menino já crescido faz no banho, pelo que deixam de saber se ele tem dificuldade ou não em retrair a pelezinha para trás. Uma forma discreta de monitorizar se a criança o faz correctamente é a inspecção das cuequinhas. Os vestígios de urina na cueca podem significar que o prepúcio não está a ser puxado durante a micção. Ela acumula atrás do prepúcio quando o menino faz xi-xi, caindo posteriormente para a cueca.

O que fazer? Primeiro, quebrar o tabu lá em casa. Explicar ao filho que se trata de uma regra de higiene. Se não expuser completamente a glande, a urina e o sebo acumulado vão cheirar mal, vão dar comichão e serão fonte de infecções. Devem fazê-lo no banho e em cada vez que vão à casa de banho.

[fonte: celldweller.com]

Segundo, é perfeitamente normal que a entrada na adolescência provoque uma certa vergonha em relação às mudanças no corpo, pelo que a mãe terá dificuldade em ter esta conversa e muito mais em ver se a higiene é efectivamente bem feita. É preciso forçar o pai (ou figura em substituição) a entrar em acção.

Pilinhas II

Outra das razões pelas quais trago à baila o tema das pilinhas é o facto de haver um grande tabu à volta do pénis dos miúdos e dos graúdos. Numa sociedade em que a nudez e o sexo aparecem a cada passo na televisão e nas revistas, é estranho que caia uma cortina de vergonha, quando se chega a um assunto tão naif como a pilinha de uma criança. Qual a vergonha de discutir (reparem noutro trocadilho) o sexo dos anjos?

Para assuntos da pilinha, são quase sempre as mães que trazem os meninos à consulta. Muito raramente é o pai que vem e, quando vem, encolhe-se no canto do gabinete. Vergonha? Medo? Indiferença? Acredito que alguns achem que o tempo resolverá tudo, como eventualmente resolveu o seu caso. Outros ignorarão uma regra básica de higiene como é a retracção do prepúcio, tal é a cara de nojo perante a manobra explicativa no prepúcio do filho. Outros há, que se envergonham pelas perguntas que nunca fizeram em relação ao seu sexo, que vêm reflectido no sexo do seu menino. O tema daria um estudo sociológico interessante.

Pilinhas

Não há tema que suscite mais dúvidas entre as mães (e, embora muitos não admitam, entre os pais também) como a pilinha da criança. É um tema que ocupa muitas consultas de Cirurgia Pediátrica, pelo que vai merecer uma série de posts. Começa logo pelo prepúcio. Esta pelezinha que recobre o pénis (atentem ao trocadilho) dá pano para mangas.

Uma das dúvidas que assalta a mente dos recém-papás é se devem ou não retrair o prepúcio e até onde. Ao nascimento, o prepúcio está aderente à glande do pénis. Durante os primeiros meses, a produção de esmegma (espécie de gordura) faz com que a o prepúcio vá descolando lentamente. Mais tarde ou mais cedo, esta substância amarelada aparece na ponta da pilinha do menino ou fica visível à transparência junto à glande. Por vezes, é confundido com pús, mas não se trata de uma infecção nem exige outro tratamento que não seja lavar com água.
Como é que sabemos de o descolamento está completo? Durante ou logo após do banho, quando a pele está mais humedecida e laxa, os pais devem fazer uma retracção leve do prepúcio. Fazer até onde conseguirem sem nunca forçar. É frequente notar-se um aperto a toda a volta, o chamado anel prepucial. Forçar a passagem deste anel pode fazer sangrar esta pele, magoando o menino e levando a uma cicatriz (causa de fimose). Havia o hábito antigo (infelizmente não completamente abandonado) de forçar um descolamento na consulta. Na maioria das vezes, as criança deixava de confiar no médico que lhe tinha feito a maldade e nos pais que tinham sido coniventes, agarrando-o à marquesa, pelo que  pura e simplesmente não deixava ninguém tocar ‘no seu instrumento’, durante longos meses. Logo, o prepúcio voltava a aderir e, muitas vezes, desenvolvia a tal cicatriz (fimose cicatricial). Se a retracção for feita progressiva e diaramente, haverá uma altura em que a pele virá completamente para trás. Noventa por cento dos meninos terão descolamento e retracção completa do prepúcio pelos 3 anos de idade.
O que é a fimose? É a incapacidade de retracção do prepúcio, por impedimento do tal aperto prepucial. Pelo exposto acima, a fimose é normal (ou fisiológica) até aos 3 anos. Para além da cicatriz, existem outras causas (como a inflamação e infecção local) que podem fazer com o anel fique mais duro e difícil de ultrapassar. Nalguns casos, o tratamento com creme corticóide pode ajudar a alargar o anel. Nos casos cicatriciais, apenas a cirurgia resolverá o problema. A circuncisão consiste no corte circular da pele do prepúcio de forma a tirar este ‘aperto’. É uma cirurgia sob anestesia geral e, na maioria dos casos, não necessita de pernoita no hospital. De qualquer das formas terá uma cicatriz que exigirá cuidados de desinfecção e uma mãe corajosa para os prestar, porque, regra geral, os papás não conseguem olhar sequer.

Um aperto no estômago

Ontem não vim cá, porque andei às voltas e voltas para operar dois recém-nascidos. Apesar de ser relativamente rara (1-4 em 1000 nascimentos), os dois tinham a mesma patologia: estenose hipertrófica do piloro. Estenose quê?

A estenose hipertrófica do piloro é uma doença causada pelo aumento (hipertrofia) do músculo que controla a passagem do contéudo do estômago para o duodeno (que é a primeira porção do intestino). Esta passagem chama-se piloro e, quando o músculo hipertrofia descontroladamente, fica apertado (estenose) de tal forma que impede a passagem dos alimentos. Consequência? O bebé vomita tudo o que ingere, porque pura e simplesmente o leite não passa do estômago. Numa fase inicial, pode parecer apenas que a criança regurgita (o comum, bolsar), mas em horas ou dias o vómito passa a ser abundante e literalmente em jacto (projectado para a frente).

[fonte: empowher.com]

Obviamente, esta é uma situação que preocupa os pais, fazendo com que procurem rapidamente o médico. Actualmente, o acesso facilitado à ecografia permite o diagnóstico precoce desta doença. Se a ecografia mostrar um piloro com um comprimento maior ou igual a 16 mm e uma parede muscular maior ou igual 4 mm, o diagnóstico de estenose hipertrófica do piloro está feito. Por vezes, como aconteceu nos últimos dias, temos que repetir várias vezes a ecografia, à espera que o piloro antinja estas medidas, de forma a termos um diagnóstico seguro. Em ambos os bebés, vimos o músculo a espessar desde o dia anterior. Em ambos os bebés tivemos que intervir cirurgicamente, pois esta é a única solução para esta doença.

A estenose hipertrófica do piloro aparece entre as 2 e as 8 semanas de vida e a sua causa é desconhecida. Sabemos que é mais frequente em rapazes e no primeiro filho, mas não sabemos porquê. A operação consiste na secção daquelas fibras musculares que estão a impedir o piloro de abrir, o que pode ser feito por via aberta (clássica) ou por laparoscopia (comunmente chamada de ‘furinhos’). Apesar de haver ainda algum debate sobre qual a melhor técnica, duas importantes revisões científicas parecem favorecer a abordagem laparoscópica (ver Journal of Pediatric Surgery e Surgical Endoscopy). Foi o que fizemos ontem.

O seu a seu dono

O Rodrigo Moita de Deus, que me fez o favor de linkar este blogue apartir do 31 da Armada, é o legítimo autor do título deste blogue. A sua mente criativa é mais veloz que o desenrolar de uma vulgar conversa. Telefonei-lhe há tempos, quando procurara o nome ideal ara o blogue. Ainda não tinha acabado de explicar as hipóteses que teria para baptizar o dito, quando ele atira: «e os filhos dos outros». Respondo eu: «Sim, também vou falar dos filhos dos outros». «Não. É o nome para o blogue. E os filhos dos outros.» Achei genial. Obrigado, Rodrigo.