Fimose e hérnia em dois textos no ‘Pediatra para todos’

O blogue está a passar por um período letárgico. Culpa da parte profissional da vida deste que vos escreve, felizmente. Felizmente, porque, quando se faz o que se gosta, trabalhar é bom. Juntar-lhe mais conhecimento e mais inovação ainda é melhor. De facto, no último mês tenho estado mais ocupado com a actividade clínica à qual se juntou uma série de apresentações em congressos, seminários e pós-graduações. Principalmente estas últimas, já me obrigam a estar muito tempo no computador a escrever ciência. Sobrou pouco para a escrita criativa.

Ainda assim, apareceu um texto original meu noutro blogue. Foi um texto no ‘Pediatria para todos’ do meu amigo Hugo Rodrigues: Fimose – 8 coisas que os pais devem saber sobre o prepúcio e a sua circuncisão. Não há tema que suscite mais dúvidas entre as mães (e, embora muitos não admitam, entre os pais também) como a pilinha da criança. É o tema central de muitas das consultas dos cirurgiões pediátricos. No mesmo blogue, já tinha escrito um outro texto que vos recomendo: O meu bebé está irritado – será uma hérnia?

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Cirurgia minimamente invasiva para o quisto sacrococcígeo

Acho que já devia ter falado aqui no quisto sacroccígeo há mais tempo, pois é tornou-se uma doença comum da cirurgia pediátrica desde que passámos a tratar os adolescentes até aos 18 anos. É um quisto na região do cóccix que pode apresentar-se com uma fístula por onde sai algum pêlo e pús. Por isso, é comum falar-se em fístula pilonidal, sinus pilonidal ou sacrococcígeo, quisto ou cisto pilonidal, e outras variantes destes nomes.

 

Ao contrário de algumas teorias anteriores, o quisto sacrococcígeo não é congénito. Não é porque o bebé tem uma pequena impressão (ou pit ou sinus) entre as nádegas que desenvolverá obrigatoriamente um quisto sacrococcígeo. Esta doença é adquirida e trata-se basicamente de um pêlo encravado que, pela sua localização e anatomia local, tem tendência a crescer para dentro da pele, inflamar e formar um quisto à sua volta. Sabendo disto, percebe-se que apareçam mais a partir da adolescência, nas pessoas mais peludas* (há um predomínio, no sexo masculino) ou em pessoas passem muito tempo sentados sobre o cóccix, seja pela profissão (por exemplo, motoristas) seja por certos desportos (por exemplo, canoagem) e nos obesos.

A zona inter-nadegueira tem uma conformação que ajuda a que o quisto continue a crescer sem grandes sintomas até ao dia em que infecta e acumula pús. Este pús pode ter que ser drenado (há quem goste de dizer ‘lancetado’) ou sair espontaneamente pela tal fístula que pode fechar, ficar aberta durante meses, ou abrir e fechar de forma intermitente. Seja qual fôr o cenário, o mais provável é precisar duma cirurgia definitiva.

 

A cirurgia clássica para o quisto é tecnicamente simples e consiste na excisão do quisto e dos trajectos fistulosos com sutura da ferida cirúrgica (encerramento primário) ou deixando a ferida aberta para cicatrização por segunda intenção (encerramento secundário). Em qualquer dos casos, o tempo de cicatrização é longo (mínimo de 15 dias), doloroso e muito pouco prático, pois o doente tem que ficar deitado de barriga para baixo durante o tempo de cicatrização. O adolescente fica impedido de ir às aulas, de passear com os amigos, praticar desporto, etc.

 

 

 

 

 

 

[fonte das imagens: msurgery.ie]

Apesar de ser uma cirurgia simples do ponto de vista técnico que se aprende logo no primeiro ano de estágio, ela está associada a uma taxa grande de complicações que vão desde a infeção da ferida, à hemorragia, à deiscência (abertura, desgarre) da sutura, à recidiva (recorrência da doença). Nalgumas publicações internacionais, 40% dos doentes têm novo quisto ou fístula. Por vezes, ele aparece passados vários anos. Portanto, é um bocadinho ingrato para os cirurgiões, que detesta ter complicações. E mais ingrato ainda para os doentes que terão de ser submetidos a mais tratamentos e mais cirurgias.

 

Em 2013, um cirurgião geral italiano (Piercarlo Meinero) apresentou uma técnica endoscópica menos invasiva para o tratamento destes quistos em adultos: Endoscopic pilonidal sinus treatment (E.P.Si.T.). A técnica consiste em aproveitar os trajectos fistulosos para introduzirmos uma câmara com canal de trabalho, que usamos para limpar e cauterizar todo o quisto sem ter que fazer uma grande incisão. No final, as fístulas ‘limpas’ ficam abertas para drenar o líquido decorrente da cirurgia. Em vez de ficar imobilizado durante semanas, o doente sai da cirurgia já sentado e pode levar uma vida normal e sem dor. Da minha experiência, a maioria não toma nenhum alnalgésico após a cirurgia. A taxa de recorrência parece ser semelhante entre as duas técnicas, mas a vantagem em termos de conforto é evidente.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Eu tive a oportunidade de experimentar esta técnica muito cedo e tenho a utilizado desde 2015. Este ano, publicámos o primeiro estudo comparativo desta técnica na população pediátrica no Journal of Pediatric Surgery.

 

*A depilação (em particular, a depilação definitiva por laser) parece diminuir a progressão da doença numa fase inicial e previne a recorrência do quisto pilonidal já operado. Daí, eu recomendar a depilação com creme ou gel depilatório antes da cirurgia e durante o processo de cicatrização após a cirurgia. Um a dois meses após a cicatrização da ferida, recomendo a depilação com laser alexandrite, porque (até ver) é o que se sai melhor nos ensaios clínicos.

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Ainda faz sentido ter um blogue?

Tenho adiado a publicação deste texto e já o reformulei inúmeras vezes. É um texto algo longo, algo lamechas e que chega a passar pelo queixume. Mas, pior de tudo, reflecte sobre a minha relação com as redes sociais, que é um assunto sobre o qual ainda não tenho certezas. Se vos maçar, passem à frente, por favor.

 

Em Janeiro deste ano fui convidado pela Associação Portuguesa para a Promoção da Saúde Pública para falar num workshop sobre comunicação em saúde. Não sei se acrescentei muito ao painel constituído por pessoas que sabiam realmente do que estavam a falar. A minha apresentação centrou-se no papel dos blogues na comunicação de temas em saúde por médicos e, como não podia deixar de ser, incluí uma retrospectiva da minha vida paralela na blogosfera. Nesta retrospectiva, descobri que os diferentes blogues acompanharam diferentes fases da minha vida.

 

 

A minha estreia na blogosfera foi em Agosto de 2004. Foi na vésperas de uma viagem de 2 meses a Timor que fiz com a AMI (Assistência Médica Internacional). Era eu um aluno recém-licenciado em Medicina, à espera dos papéis finais da Universidade e da colocação no internato geral. Chamei-lhe ’Casa em construção’, porque eu integraria uma ajuda humanitária num País em (re)construção e eu próprio sabia que tinha muito para crescer. Esse blogue foi morrendo aos bocadinhos com o início da actividade clínica e com a necessidade de estudar intensamente para o exame de acesso à especialidade.

 

Já tinha iniciado o internato (em meados de 2006), quando comecei o meu segundo blogue ‘A Liberdade dos Outros’. O primeiro post reflectia logo duas coisas: 1) a vontade de escrever sobre política, principalmente da necessidade de maior liberdade e menos Estado e 2) necessidade de escrever sobre temas sensíveis de forma mais ou menos anónima, porque os pensamentos livres nem sempre são bem aceites por colegas de profissão mais velhos. Dizia assim, «a minha liberdade começa onde acaba a liberdade dos outros. Não por imposição minha, mas sim por imposição dos outros. Aqui não vou ser livre.» Este também foi morrendo lentamente, porque fui convidado para escrever em blogues colectivos:  primeiro no blogue da revista Atlântico e, posteriormente, no ‘31 da Armada’: dois blogues assumidamente políticos e assumidamente de direita. Tirando, este último, os blogues e os respectivos textos repousam no submundo da internet.

 

Foi já como especialista, em Novembro de 2012, que decidi começar o ‘E os filhos dos outros’, que insisto em manter vivo. Nasceu da vontade de continuar a escrever, mesmo que espremido entre as obrigações de pai e cirurgião pediátrico. Ele acabou por servir outros propósitos, como o de escrever memórias da história dos meus filhos que não quero perder, explicar algumas das doenças que trato no meu dia a dia e partilhar algumas ideias que vou tendo sobre educar crianças mais felizes e saudáveis. Com mais ou menos assitência, vou mantendo o blogue vivo. Para mais, ele tornou-se a minha casa, o meu sítio da Internet, o local onde me encontrarão sempre e de onde faço as ligações para os outras website e redes sociais onde também estou.

 

Já se ouviu muitas vezes anúncios da morte dos blogues mas, a cada passo, eles ganham nova vida, reinventam-se e ganham novos propósitos. Quem imaginava há um bom par de anos que haveriam escritores que viveriam única e exclusivamente do seu blogue? Quem imaginaria que actores e apresentadores de televisão entrassem neste mundo para promoverem marcas e eventos? Com a entrada em cena do facebook, do instagram e das suas stories, do twitter, do pinterest, os blogues foram mudando de estilo. No meu caso, deixou de fazer sentido frases ou imagens simples só para dar sinal de vida. Considero também mais funcional partilhar um artigo ou uma imagem sobre as quais não tenho nada a acrescentar nas redes sociais em vez de usar o blogue para isso.

 

Mas as redes sociais, em particular o facebook, têm um lado perverso para os blogues. Elas usam algoritmos esquisitos que decidem por nós o que vemos ou deixamos de ver, dando uma prioridade determinada em parte por quem paga mais. Eu não estou para isso. Mas, do que consigo perceber dos gráficos aqui do ‘backoffice’, 50% dos leitores chegam a esta casa através do facebook, pelo que está fora de questão abandonar. Somando tudo, acho que continua a fazer sentido ter este blogue, esta plataforma onde posso colocar textos longos como este e que serve de repositório do que vou escrevendo ao longo dos anos. Se gostam de me er, vão passando por cá. Serão sempre bem-vindos.

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Não basta saber

Se seguem o meu instagram, poderão ter percebido que estive na Roménia, no início deste mês. Tive a honra de ser convidado pela Associação Europeia de Cirurgiões Pediátricos (EUPSA) para ser formador num curso de laparoscopia em Timisoara. Esta foi a segunda vez que fui como formador convidado à Roménia. O curso correu lindamente. Para mim, é um previlégio poder contactar com alguns grandes nomes da cirurgia pediátrica europeia, conviver com formandos de países tão exóticos como os Camarões e, na medida do que vou sabendo, poder ajudar estes colegas menos experientes a evoluir nas suas técnicas miniamente invasivas. Quantos mais soubermos ser minimamente invasivos, mais e mais crianças serão menos agredidas cirurgicamente.

 

   

Mas ser convidado para leccionar estes cursos representa também um conjunto de experiências que vou acumulando, uma melhoria das minhas capaciades de ensino e, claro, a minha própria evolução técnica. Como eternizou Phill Collins em ‘Son of a Man’, «in teaching you will learn, and in learning you will teach.» De facto, foi num destes cursos que germinou a ideia dum modelo para treino da cirurgia laparoscópica da hérnia inguinal em crianças que publicámos em Abril numa revista importantes da Cirurgia Pediátrica: ‘Preliminary Assessment of a Dry-Lab Model for Laparoscopic Percutaneous Inguinal Ring Suture Training’ Apesar de ser uma técnica que ganha mais e mais adeptos, não é fácil ensiná-la nem conseguir modelos de treino eficientes. Esta geringonça que inventámos parece ajudar. Podem ler mais sobre hérnia inguinais na criança aqui e sobre a sua correção ‘sem cicatriz’ aqui.

 

Ou seja, não basta saber. É importante também transmitir o que sabemos e ajudar quem quer aprender. Quanto mais conhecimento chegar a mais pessoas, podemos fazer mais e melhor pelas nossas crianças. No fundo, este acaba por ser um dos motes deste blogue.

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Uma das formas mais fáceis de poupar na conta da energia evita queimaduras

Nos últimos meses, atendi 3 episódios de queimaduras graves em crianças que aconteceram de forma muito parecida. Em todos eles, havia uma torneira de água a escaldar que a criança abriu inadvertidamente. Um que mais me impressionou foi o de dois irmãos que brincavam no banho e um deles queimou o pescoço e o tronco quando de repente passou o regulador da temperatura para o vermelho. Uma brincadeira que os meus filhos gostam tanto que se transformou num pesadelo.

 

Mais, em comentários com os pais destas crianças e com alguns colegas apercebi-me que nem toda a gente sabe disto: uma das formas mais fáceis de poupar na conta da luz e do gás é também uma forma de evitar queimaduras (em nós e nos nossos filhos). Basta ter cuidado ao definir a temperatura máxima de aquecimento do esquentador. Devemos regular a potência do esquentador para a temperatura ideal para a pessoa que toma banho com a água mais quente lá de casa. Ou seja, quando a torneira está com a água quente no máximo, ela não deve ultrapassar o que é confortável para o mais friorento da casa. Assim, não queima ninguém.

 

Aquecer a água mais do que isso é um desperdício de energia (logo de dinheiro), porque estaria a gastar gás para subir a temperatura da água e logo de seguida juntava água fria. Portanto, é economicamente e ecologicamente mais inteligente regular a potência do esquentador para que nunca (ou raramente) lhe junte água fria. O mesmo se aplica a quem tem cilindro/termoacumulador. Neste caso, pode-se definir um horário para aquecer a água quando a luz é mais barata. O água pode ir ficando mais fria, mas, se fizer o teste da temperatura da água na hora do banho, não há como falhar.

 

[imagem: burnprevention.org]

 

Leia também como avaliar e tratar os diferentes tipos de queimaduras aqui.

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Evitar idas à urgência por causa dos hoverboards e dos skates

E a moda dos hoverboards teria que chegar à literatura científica. Um artigo recente na revista da Academia Americana de Pediatria analisou os ‘estragos’ deste novo brinquedo: Pediatric Hoverboard and Skateboard Injuries. Quando li este artigo torci o nariz. Colocar hoverboards e skateboards no mesmo saco? É quase ofensivo para o pai dum skateboarder empenhado como o JM. Mais, em boa verdade, são mais uma gigajoga que se move com movimentos mínimos e preguiçosos, com muito pouco exercício físico envolvido. Tecnicamente, são self-balancing, 2-wheeled boards (palavras dos autores do estudo) e estão longe dos hoverboards retratados no mítico Regresso ao Futuro.

 

via GIPHY

 

Mas voltemos ao artigo, porque está muito bem escrito. Os autores percorreram o National Electronic Injury Surveillance System americano e colheram os dados relativos a acidentes provocados por hoverboards e skateboards. Os resultados não são surpreendentes mas chamam a atenção para a necessidade de algumas precauções para quem tem filhos adeptos duma (ou das duas) destas modalidades.

 

Vamos aos resultados, Entre 2015 e 2016 (dados das entradas nos serviços de urgência EUA, recordo), terão havido 26854 lesões por hoverboards. A idade média das crianças ‘acidentadas’ foi 11 anos, quase tantos rapazes (52%) como raparigas (48%). 66% dos acidentes ocorreram dentro de casa. A maioria das lesões ocorreram nos pulsos (19%), antebraço (14%), e cabeça (14%). Algumas delas com fractura (40%).

 

Em relação aos skateboards, terão acontecido 121398 acidentes que motivaram ida ao serviço de urgência, entre 2015 e 2016. A idade média das crianças foi 13 anos. 52% das lesões ocorreram na rua. Mais uma vez, os pulsos foram as grandes vítimas em termos de membros (15%), houve 35% de traumatismos cranianos. 32% dos skateboarders tinha algum tipo de fractura.

 

De factos, o tipo e frequência das lesões provocadas pelos hoverboards e pelos skates são muito semelhantes e chamam para a necessidade de protecção, mesmo nas brincadeiras dentro de casa. O uso de capacete e a protecção dos pulsos são fundamentais. Podemos não conseguir evitar as quedas, mas evitamos muitas idas ao serviço de urgência.

 

JM protegido com capacete e proteção de pulsos

 

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Como detectar e tratar a displasia da anca do bebé?

Há muito tempo que não trazia um convidado especialista. O Dr. Nuno Alegrete é um ortopedista infantil meu amigo a quem encomendei um texto sobre a Displasia da Anca, por ser um tema que interessa muito aos pais de recém-nascidos. O Nuno é pai de pai de dois filhos: o João, com 14 anos, e a Sofia, com 11. Desde há mais de 15 anos que se dedica à Ortopedia Pediátrica, tendo, até há pouco, trabalhado no Hospital de S. João. Atualmente, exerce a sua atividade na Casa de Saúde da Boavista e no Hospital CUF Porto, onde é coordenador da Unidade de Ortopedia Pediátrica.

 

Displasia de desenvolvimento da anca

Nuno Alegrete

 

Displasia de desenvolvimento da anca (DDA) é uma expressão que designa um conjunto de alterações que interferem com a estabilidade da articulação da anca e a forma do acetábulo (cavidade onde se encaixa a cabeça do fémur). A expressão “luxação congénita da anca” representa uma perda total do contacto entre as superfícies articulares da cabeça do fémur e do acetábulo e é a forma mais grave do espectro de alterações da DDA.

É frequente os recém nascidos apresentarem alguma laxidez na articulação da anca e uma imaturidade no desenvolvimento do teto acetabular durante as primeiras semanas. Na maioria dos casos essa elasticidade tende a diminuir permitindo que o acetábulo se desenvolva adequadamente. Estes casos, necessitam apenas de vigilância clínica e a sua evolução não traz qualquer problema futuro.

Quanto às ancas luxáveis ou com displasias graves e persistentes, estima-se que a sua incidência se encontre entre os três e os cinco em cada mil nascimentos. Habitualmente apenas uma das ancas está afetada (cerca de 80% dos casos) e quando assim é, a anca esquerda é a mais atingida (3:1).

Por regra, a DDA ocorre em recém-nascidos sem qualquer outra patologia, sendo identificados alguns fatores de risco: género feminino (provavelmente resultante de maior sensibilidade à hormona materna relaxina segregada durante a gravidez), limitação da mobilidade fetal (primeira gravidez, oligoâmnios – pouco líquido amniótico, apresentação pélvica – bebés que se mantém sentados durante a gravidez, elevado peso ao nascer). Outras condições, como a presença de torcicolo congénito, metatarsus adductus e plagiocefalia também estão associadas com maior risco de DDA. A história familiar positiva é outro fator de risco a considerar, sugerindo que aspetos genéticos possam estar envolvidos na génese desta condição.
As características clínicas da DDA são muito variáveis, estando dependentes do grau de displasia e da idade do doente. O exame clínico das ancas nas crianças deve ser efetuado em todas as avaliações de rotina até à aquisição de um padrão de marcha estável (cerca dos dois anos).

 

Fig. 1- Diferença de comprimento dos membros inferiores
Fig. 2 – Desnível na altura dos joelhos
Fig. 3 – Assimetria de pregas em recém-nascido com luxação da anca esquerda
Fig. 4 – Limitação da abdução da anca esquerda

 

 

 

 

 

 

 

 

Como se diagnostica?

No recém-nascido, o exame deve ser efetuado com o bebé calmo e relaxado, deitado sobre uma superfície dura, abduzindo e aduzindo a anca repetidamente para detetar algum ressalto ou movimento anormal. Uma diferença no comprimento dos membros inferiores (fig. 1) ou na altura dos joelhos (fig. 2) quando as ancas estão fletidas, são sugestivos da presença de luxação da anca. A assimetria das pregas inguinais (fig. 3) e glúteas também deve ser valorizada, apesar de presente em cerca de um quarto dos recém nascidos. Um outro indicador de luxação da anca é a limitação da abdução (fig. 4). Existem ainda algumas manobras (Ortolani, Barlow) para determinar a estabilidade e a redutibilidade da anca. A DDA sem luxação pode não ter, por seu lado, qualquer tradução clínica e apenas os exames complementares de diagnóstico poderão fazer a sua identificação.

A ecografia (fig. 5) é a primeira técnica de imagem para avaliar a estabilidade e a morfologia da articulação da anca. É especialmente útil nos primeiros seis meses de vida e é fundamental para confirmar algum eventual achado do exame clínico ou para avaliar crianças com fatores de risco. Permite avaliar a profundidade do acetábulo (através da medição do ângulo alfa) e a tendência à subluxação da cabeça femoral (através da medição do ângulo beta), permitindo classificar as DDA em quatro graus (classificação de Graf), desde o normal até à luxação da anca. Atualmente, em Portugal, recomenda-se a realização de ecografia a todas as crianças com os seguintes fatores de risco: apresentação pélvica, história de oligoâmnios, história familiar, deformidades congénitas do pé, torcicolo congénito, síndrome polimalformativo e assimetria das pregas.

 

Fig. 5 – Ecografia da anca
Fig. 6 – Radiografia mostrando luxação da anca direita

 

 

 

 

 

 

 

A radiografia (fig. 6) é um exame que tem mais valor após o aparecimento radiográfico dos núcleos de ossificação das cabeças femorais (o que acontece por volta dos quatro a seis meses), permitindo determinar a sua posição e a forma dos acetábulos. Tratando-se de um exame estático (ao contrário da ecografia que é um exame dinâmico), não permite avaliar a instabilidade articular.
Outros exames, como a tomografia computorizada ou a ressonância magnética nuclear, raramente estão indicados.

 

Como se trata?

Quando se deteta uma DDA, o objetivo do tratamento é proporcionar uma anca adequadamente centrada, de modo a permitir um ambiente ótimo para o desenvolvimento da cabeça femoral e da cavidade acetabular.

Em crianças com menos de seis meses de idade o tratamento consiste na colocação de talas de abdução, sendo a tala de Pavlik a mais difundida. Esta tala é dinâmica, permitindo abdução e flexão, mas contraria a adução e extensão das ancas e deverá ser usada por um período de 2 a 3 meses, sendo a evolução clínica monitorizada com ecografia. A utilização de dupla ou tripla fralda foi aconselhada no passado para tratar a DDA no entanto, atualmente, está contraindicado o seu uso uma vez que, alem de não ter efeito terapêutico, pode promover a extensão das ancas criando uma posição desfavorável ao seu desenvolvimento.
Entre os seis e os 18 meses de idade, a redução da anca luxada pode obrigar a um período de tração aos membros inferiores, seguida de uma imobilização com gesso durante três a quatro meses. A redução cirúrgica é muito rara nesta idade, mas pode ser necessária caso haja falência da tentativa de redução fechada.

 

Fig. 7 – Criança com tala de Pavlik

 

Após os 18 meses de idade a regra é efetuar uma recolocação cirúrgica da anca, seguida de uma imobilização com aparelho de gesso. Todas as crianças submetidas a tratamento por DDA devem manter vigilância clínica e imagiológica até aos 6 anos de idade.

Como conclusão, recomenda-se atualmente que todos os bebés sejam submetidos a um exame clínico de rotina pelo seu pediatra ou médico assistente. Caso existam fatores de risco ou alguma dúvida no exame físico deverão efetuar uma ecografia de rastreio às seis semanas de vida. Caso persista a dúvida ou exista uma DDA identificada, devem ser referenciados a um Ortopedista Infantil para orientação de tratamento.

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Antecipar e evitar acidentes na neve

Vêm aí as férias da Páscoa, que, para mim, é a época perfeita para uma visita à neve. Mais, esta família cé unânime em concordar que são as melhores férias do ano. Por razões várias, este ano não conseguiremos fazer férias nessa altura, pelo que eu e o JM aproveitámos a viagem duns amigos professores de desporto com os seus alunos, por altura da minha licença parental, para fugirmos numas mini-férias (pai e filho). O JM foi a mascote dum grupo de trinta e tal alunos universitários e mostrou os seus dotes de exímio snowboarder. Sempre bem disposto e adepto de desportos radicais, ele expõe-se bastante ao risco.

 

Como cirurgião pediátrico, mas também como pai preocupado, tenho sempre um viés para a avaliação de risco, quando olho para qualquer desporto. Ou seja, perante uma nova actividade desportiva que os meus filhos querem experimentar, saltam-me logo à mente as potenciais lesões e as formas que teremos evitá-las ou pelo menos minimizá-las. No caso dos desportos de neve saiu um artigo interessante no Journal of Pediatric Surgery: The spectrum of pediatric injuries sustained in snow sports. Um grupo de Melbourne (Austrália), analisou os dados recolhidos nas três maiores estâncias, entre 2005 e 2015. Foram revistos um total de 6299 com crianças: 60,7% skiers e 38,5% snowboarders. A maioria das lesões (53.5%) deveram-se a quedas e afetaram predominantemente os joelhos (no caso dos skiers) e os punhos (no caso dos snowboarders). Mais dois achados óbvio, (1) o uso de capacete diminui com o aumento da idade e (2) as concussões cerebrais são menores em que usa capacete, quem em skiers quer em snowboarders.

Daqui se depreende que, para os snowboarders o capacete e as proteções de punho são obrigatórias. O JM gosta de acrescentar umas protecções dos joelhos, porque lhe dão conforto quando se ajoelha. Mas às vezes esquece-se dumas e de outras… À conta destes esquecimentos, este ano tivemos uma visita ao gabinete médico da pista com direito a passeio na mota de neve. Só um susto, felizmente. Mas à conta destes esquecimentos, descobri e já encomendei uma luvas com proteções de punho incluídas (fica aqui a dica).

 

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O que nos diz a ciência sobre actividade física e sucesso escolar?

Este artigo no Pediatrics chamou-me atenção para alguns pontos importantes sobre a educação dos nossos filhos. Trata-se duma revisão de 26 estudos publicados sobre a relação entre actividade física e sucesso escolar. Das conclusões principais, destacam-se:

  1. a actividade física livre entre os períodos das aulas (mesmo que apenas 10 minutos) contribuem para o aumento sucesso escolar;
  2. o impacto sobre a Matemática parece ser maior do que sobre a leitura e a escrita;
  3. a actividade física faz com que haja mais concentração no trabalho intelectual;
  4. o exercício físico escolar parece ser mais benéfico que o desporto extra-curricular.

 

Estas conclusões levantam uma série de reflexões. Numa sociedade que se depara com o aumento de diagnósticos de crianças com hiperactividade e/o défice de atenção das crianças, escolhemos encurtar o tempo que elas têm para brincar livremente no recreio e menorizamos o papel da disciplina de Educação Física. A ciência reforça aquilo que sabemos há algum tempo: exercício físico aumenta a capacidade de concentração. Não é preciso que este exercício físico seja sob a forma dum desporto organizado. Basta dar tempo e espaço para brincar entre as aulas.

 

Na mesma linha de pensamento, parece-me óbvio que as reformas que envolvem as outras disciplinas mais intelectuais (matemática, língua portuguesa ,principalmente) não deveriam ser feitas independentemente das alterações no tempo e tipo de exercício físico que é proporcionado aos alunos. Seria até desejável que em cada programa de cada disciplia juntássemos jogos e actividades físicas relacionadas com a matéria dada. Há várias ideias possíveis no website GetFitIn, no MathAndMovement e, claro, por esse Youtube fora.

Finalmente, o papel do desporto extra-curricular é importante, mas o que é feito dentro da escola é mais. É muito diferente, os miúdos terem que se deslocar (e os pais pagarem) a um clube para praticarem desporto ou as próprias escolas criarem os seus clubes. Mais, é bem diferente chutar estes momentos desportivos para o final do dia e espremê-los entre trabalhos de casa ou, inseri-los na vida escolar normal. Não sou eu que o digo, é a ciência.

 

[fonte da imagem: mathandmovement.com]

 

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O Que Sabem os Pais Sobre o Tratamento de Queimaduras?

Este é o título dum trabalho de investigação que uns colegas aqui do Porto fizeram e em que este blogue particiou de forma voluntária e digital. Entre 26 de Julho a 12 de Agosto de 2016, foi disponibilzado um inquérito online, «em dois blogs sobre temas pediátricos (http://www.eosfilhosdosoutros.com e http://blogpediatriaparatodos.blogspot.pt)». O questionário incluía informação demográfica, questões sobre tratamento geral de queimaduras e perguntas de verdadeiro/falso. Os resultados foram publicados na última edição da Acta Pediátrica Portuguesa.

 

Conseguiram/conseguimos respostas de 644 pais. Havia história de queimadura em 16,3% dos inquiridos, 89,5% das quais teriam ocorrido em casa. Em termos de abordagem, 51,2 % tratariam a queimadura com água fria. No entanto, 95,7% têm um conhecimento inapropriado quanto à duração (idealmente, 15-20 minutos) e apenas 1,6% cobriria a zona com película aderente (solução entendida como ideal pelos investigadores). Cerca de 3,7% optariam pelas formulações caseiras, incluindo gelo, mel, pasta dos dentes e gorduras. «Sexo feminino e história prévia de queimadura foram associados a maior conhecimento sobre o tratamento das queimaduras.»

 

«A nível mundial, oito em cada 100 000 crianças são hospitalizadas anualmente na sequência de uma queimadura (…) e constituem um verdadeiro problema de saúde pública, tendo importantes repercussões em termos de morbimortalidade e perda de qualidade de vida. (…) É de salientar que à luz do conhecimento dos autores este é o primeiro estudo efetuado em Portugal que avaliou o grau de conhecimento dos pais sobre os primeiros socorros das queimaduras.» Claramente, este é ainda limitado.

 

Os autores sugerem que «o pediatras e os médicos de família devem (…) abordar este tema na consulta de promoção de saúde infantil. Outra estratégia passará pela maior divulgação junto dos profissionais de saúde da norma da Direção Geral da Saúde sobre abordagem pré-hospitalar das queimaduras em idade pediátrica e no adulto.» Na parte que me toca, recordo o texto que escrevi sobre as queimaduras aqui no blogue, inspirado num fim-de-semana de chuva e frio cortante.

 

 

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