A Doença Inflamatória Intestinal na Criança – o que é importante saber?

A Doença Inflamatória Intestinal (DII) foi um dos temas que discutimos no primeiro workshop online de Cirurgia Pediátrica da SPCMIN – Sociedade Portuguesa de Cirurgia Minimamente Invasiva. Os doentes com Crohn e com colite ulcerosa têm beneficiado dos avanços da cirurgia endoscópica (laparoscópica e robótica) e de outras técnicas minimamente invasivas. Estas doenças continuam a crescer em número de diagnósticos e a aparecer em crianças e adolescentes mais jovens. Como nunca abordei este tópico no blogue, achei que seria uma boa altura. 

A DII comporta um conjunto de doenças auto-imunes do intestino: Doença de Crohn (DC), Colite Ulcerosa (CU) e a colite indeterminada. A DC é uma inflamação que afeta apenas porções separadas do tubo digestivo, mas que pode afetá-lo em toda a sua extensão (da boca ao ânus).  A CU está limitada ao cólon e ao reto e geralmente começa de baixo para cima (isto é inicia-se no recto e estende-se proximalmente). A colite indeterminada é um estado inflamatório do cólon inespecífico que mais tarde pode vir a diferenciar-se em DC ou CU.

fonte: quibd.com

Estima-se que afecte 0,3% da população portuguesa e existe um aumento crescente na população pediátrica. Pensa-se que existam factores ambienciais que estejam a contribuir para esse aumento, nomeadamente a utilização excessiva de antibióticos. As DII têm uma causa pouco conhecida e acredita-se que vários fatores possam contribuir para este estado inflamatório. No fundo, sabemos que há indivíduos mais susceptíveis que, com o estímulo correto, desencadeiam a sua DII. Muito se tem especulado sobre o impacto de certos alimentos no aparecimento das DII, mas hoje sabemos que não há nenhum alimento ou classe de alimentos que provoquem DC ou CU. Não são doenças alérgicas. Logo, a inflamação no intestino é auto-infligida e não provocada pela dieta. Obviamente que, um doente com o intestino inflamado, pode ter mais dificuldade na digestão/absorção de certos alimentos, e esses alimentos até podem variar consoante a progressão da DII. Existe, sim, influência do estado psicológico dos doentes. Um doente com bom apoio emocional terá menos crises.

As DII têm apresentações semelhantes. Geralmente, a criança/adolescente apresenta uma dor abdominal tipo cólica ou moedeira e diarreia (podendo ter sangue ou pús visível) que dura vários dias. Na DC, apesar de haver diarréia na maioria das vezes, o primeiro sintoma costuma ser a perda de peso. Ainda na DC, como esta afeta todo o tubo digestivo, podem aparecer úlceras desde a boca até ao ânus e até a presença de abcessos e fístulas perianais. A zona mais afectada é o íleo terminal (porção final do intestino delgado), pelo que uma primeira crise pode ser confundida por apendicite aguda. Existem outras formas de apresentação mais raras da DII, como dores articulares, alterações cutâneas ou anemia. 

Existem alguns marcadores sorológicos (“análises de sangue”) que nos podem apontar para DII, mas o diagnóstico definitivo é feito por endoscopia (alta e baixa) com biópsia. O aspecto e a histologia (biópsia) da DC e da CU são distintas e permitem confirmar o diagnóstico diferencial. 

O tratamento inicial das DII é muito semelhante. Para controlar a inflamação será necessária uma combinação de antibióticos, glucocorticóides, imunossupressores e anti-corpos/biológicos. Mas, a DC e a CU têm “percursos de vida” muito diferentes. A CU é limitada ao cólon-recto e à camada mucosa; enquanto a DC pode afectar vários segmentos e afecta toda a espessura do tubo digestivo (da mucosa à muscular própria). Mais, a CU tem um risco aumentado de desenvolvimento de carcinoma. Este risco é pequeno nos primeiros 10 anos de doença (3%), mas depois o risco aumenta mais 20% a cada 10 anos. O doentes com CU necessitarão (mais tarde ou mais cedo) de uma cirurgia para remoção de todo o cólon e mucosa rectal. A idade e o tipo de cirurgia têm que ser discutidos caso a caso. 

na DC, a cirurgia é evitada ao máximo. Felizmente, a grande maioria dos doentes respondem bem ao tratamento médico, permitindo aos doentes viverem anos em remissão (assintomáticos). A cirurgia é necessária para tratar complicações – estenoses (apertos), abcessos, fissuras e fístulas – e deve ser sempre o mais conservadora possível. 

Tratando-se duma doença crónica é normal haver muita informação e desinformação na Internet. Por isso, gosto deixar fontes fidedignas onde os leitores podem obter dados cientificamente correctas e onde podem eventualmente esclarecer as vossas dúvidas:

  • APDI – Associação Portuguesa da Doença Inflamatória do Intestino, Colite Ulcerosa e Doença de Crohn (APDI)
  • GEDII – Grupo de Estudos da Doença Inflamatória Intestinal.

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