Sopro do coração

A convidada especialista desta semana é miinha colega no departamento de Fisiologia da Escola de Ciências da Saúde da Universidade do Minho. A Prof. Doutora Maria João Baptista é cardiologista pediátrica no Hospital de São João. Exerce actividade privada na Cardiobraga (Braga), no HPP da Boavista (Porto) e ainda colabora com a Clínica Girassol (Angola). Escreveu-nos um texto de elevada qualidade sobre um problema muito comum. Tão comum que é tema frequente das conversas entre mães (e pais): “o sopro do coração”.

Sopro do coração
Maria João Baptista

A existência de um sopro cardíaco é um dos principais motivos de referenciação de crianças a uma consulta de cardiologia pediátrica. Esta situação gera, muitas vezes, angústia e preocupação na família, apesar de, geralmente, não haver motivo para alarme. Esta apreensão está relacionada com algum desconhecimento da população do real significado do sopro, que é confundido com uma doença cardíaca. Efectivamente, o sopro é um ruído com origem no coração que pode estar associado a uma anomalia cardíaca, sendo obrigatório diagnosticar e orientar a criança, mas que na maioria das situações não corresponde a qualquer anomalia (o sopro inocente).

Para melhor perceber esta questão vamos de forma sucinta rever o funcionamento do sistema cardiovascular. A principal tarefa do coração é interagir com os pulmões para garantir a oxigenação e a eliminação de dióxido de carbono do sangue. Para tal, o coração é dividido em quatro cavidades, duas aurículas e dois ventrículos, e liga-se a duas grandes artérias, a artéria pulmonar e a aorta. O sangue pobre em oxigénio chega ao lado direito do coração, sendo bombeado até às artérias pulmonares para depois se darem as trocas gasosas; seguidamente o lado esquerdo do coração recebe esse sangue e vai bombeá-lo para a aorta que o distribui pelo corpo. Este sistema depende da estrutura musculada do coração (que lhe garante a força suficiente para bombear o sangue), de paredes que dividem as cavidades direitas das cavidades esquerdas, bem como da existência de válvulas, que funcionam como portas elásticas que abrem e fecham para controlar a passagem do sangue (estas válvulas estão presas à parede do coração por cordas de tecido cardíaco).

Quando ouvimos o coração apercebemo-nos que há dois ruídos normais que correspondem à abertura de diferentes válvulas cardíacas. Habitualmente, a passagem do sangue através das estruturas cardíacas não gera qualquer ruído adicional. Sempre que o médico é capaz de auscultar um som originado pelo sangue a passar através do coração, dizemos que existe um sopro. Esses sopros são ocasionados por eventos que causam turbulência no fluxo de sangue. Um fenómeno semelhante acontece na natureza: se o curso de um rio é largo, a água flui livremente e não se ouve qualquer som, pelo contrário se o curso se estreita gerando-se rápidos ou se há um desnível causando uma cascata, ocorre grande turbulência e ouve-se um ruído proporcional à magnitude da agitação da água.

No entanto, a presença de um sopro não implica necessariamente a existência de uma doença, pelo que consideramos que existem sopros inocentes e sopros patológicos (que não são normais). Nos sopros patológicos existe uma doença cardíaca, habitualmente uma malformação ou uma anomalia de uma válvula, que faz com que o fluxo de sangue se dê com grande turbulência gerando um ruído com características pouco tranquilizadoras. Nessas situações, a alteração cardíaca deve ser identificada e tratada atempadamente de forma adequada. Quanto aos sopros inocentes, felizmente, são extremamente frequentes na criança e não devem ser motivo de preocupação.

O sopro inocente é exactamente isso, inocente. Não faz mal, não é prejudicial, não obriga a cuidados especiais. Não há qualquer doença cardíaca que cause o ruído que o médico consegue auscultar. O sopro inocente corresponde a um ruído que se gera quando o coração trabalha de forma mais enérgica, como acontece na criança doente e com febre ou em algumas fases de crescimento. Nessas situações a quantidade e a velocidade do sangue através do coração podem aumentar, as cordas que prendem as válvulas ao coração podem vibrar (tal como as cordas de uma viola que quando vibram emitem som), e o médico ao auscultar a criança ouve um som, o sopro inocente. Estes sopros são dinâmicos e ouvem-se de forma intermitente (nem sempre são audíveis), surgem em crianças saudáveis e em contextos concretos (por exemplo, associados a febre), têm um som de características próprias (descritos como musicais). A história prévia da criança, o seu desenvolvimento físico, as características do sopro bem como outros achados do exame físico permitem ao médico assistente, na maioria das situações, ter segurança para afirmar se o ruído que ouve é ou não preocupante. Se persistir alguma dúvida, é solicitada a realização de um exame, o ecocardiograma, que permite esclarecer se o coração é ou não normal. Desde que o ecocardiograma mostre um coração normal, não há qualquer motivo para se preocupar com o sopro inocente. Nesses casos, a criança pode praticar desporto livremente, não exige nenhum cuidado especial e não necessita qualquer orientação específica.

Em suma, a maioria das crianças pode ter um sopro inocente em alguma fase da sua vida. Pais e médicos devem estar atentos para identificar as crianças que têm um sopro que possa estar associado a alguma doença cardíaca, mas a grande maioria das crianças a quem é identificado um sopro têm um sopro inocente. Portanto, se numa consulta de rotina, pela primeira vez, o pediatra auscultar um sopro ou se numa urgência for identificado, pela primeira vez, um sopro que posteriormente o médico de família não ausculta, fique tranquilo. Há uma grande hipótese de o seu filho ter apenas um sopro inocente, ou como eu digo muitas vezes, ter música no coração.

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