Soltar a língua

É comum aparecerem-me na consulta meninos e meninas com atrasos da linguagem. Vêm com indicação do terapeuta da fala que é preciso soltar a língua. São meninos e meninas com o que nós chamamos anquiloglossia, mas cujo tratamento muito provavelmente não influenciará no problema da fala que a criança tem.

[fonte: doktergaul.com]
 

A anquiloglossia é o termo técnico para descrever a língua presa, isto é, aquela que não se exterioriza livremente. Na maior parte das vezes o problema é um freio (ou trave) curto que se implanta demasiado até à ponta da língua, ‘travando’ a protusão (movimento para fora) da língua. Nas formas mais graves, a ponta da língua não consegue sequer ultrapassar a arcada dentárias, mas existem formas mais ligeiras que, se nota apenas um entalhe quando a criança põe a língua de fora.

[fonte: wikidoc.org]
 

Não há um consenso sobre a importância clínica desta patologia. Um artigo de revisão muito recente do International Journal of Pediatric Otorrinolaringology, analisou tudo o que tem sido publicado nesta área e chega à conclusão que a anquilogossia pode relacionar-se com dificuldades na amamentação e existe evidência (ainda que fraca) que a sua correcção melhora a capacidade de sucção dos recém-nascidos. Já quanto aos problemas da fala, parece não haver estudos suficientes que provem que a anquiloglossia se relaciona com problemas da articulação da fala. É uma polémica que se manterá por mais algum tempo. Eu arriscaria a dizer que aquelas situações mais graves, em que a língua não ultrapassa a arcada dentária, são de tal formas limitativas que dificultariam na fala. O que acontece é que essas são operadas mais cedo, antes de se desenvolverem os problemas da fala. Quanto às formas mais ligeiras, acredito que o problema seja meramente estético, isto é, se a língua ultrapassa a arcada dentária não afecta a articulação de palavras ao ponto de dar alterações da fala. Logo, se vêm à consulta por atrasos na linguagem, provavelmente o problema não será do ‘travão’ da língua. O estudo não prova que não exista essa relação, apenas diz que os estudos que existem são insuficientes para provar essa relação.

Estético ou não, a anquiloglossia pode e deve ser corrigida assim que for diagnosticada. Quanto mais precocemente detectada, mais simples será a cirurgia. Nos primeiros meses, bastará um corte do freio (conforme mostra a figura). Este pode ser feito no próprio consultório médico ou com uma pequena sedação inalatória no bloco operatório. Quanto mais velha a criança, mais grosso e vascularizado é o freio, o que obriga a plastia e/ou electrocoagulação.

[fonte: mayoclinic.com]
 
Nota provocatória final. Um dos meus antigos chefes tinha uma piada muito engraçada em relação à língua presa. Dizia ele que estava formalmente contra-indicado cortar o freio da língua às meninas, porque estaríamos a soltar a língua de mais uma mulher, com as consequências que isso poderia ter para a sociedade, no futuro. 😀

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