Como uma força

Finalmente o há muito prometido post sobre as hérnias inguinais (as ‘forças’, na gíria popular). Como expliquei anteriormente, os testículos nascem dentro da barriga do feto e vão descendo até encontrar o seu lugar no escroto. O canal por onde desce chama-se canal peritóneo-vaginal e pode persistir aberto por muitos meses, após o nascimento do bebé. Se o canal permitir a passagem de líquido intra-abdominal, estamos perante um hidrocelo (comunicante). Se o canal permitir a passagem de uma porção de intestino ou gordura, estamos perante uma hérnia inguinal. O tratamento do hidrocelo comunicante e da hérnia do lactente e da criança é o mesmo e consiste na laqueação (isto é, encerramento) do tal canal peritoneo-vaginal. No entanto, os tempos para cirurgia diferem.

[fonte: dermatice.org]
A hérnia inguinal corre o risco de encarcerar, ou seja, o intestino pode prender no escroto impedindo que ele volte para dentro. Para além de dor intensa, o bebé desenvolverá um quadro oclusivo, porque o conteúdo intestinal deixa de progredir apartir daquele ponto. Começam os vómitos e a deterioração do estado geral é muito rápida. Assim, o diagnóstico de hérnia obriga a cirurgia que, apesar de não ser urgente, deve ser agendada nos próximos meses. Se entretanto o intestino descer até ao testículo, ele deve ser empurrado ‘de volta’. Muitos pais conseguem aprender a manobra da imagem e aplicá-la até à data do bebé ser operado.
[fonte: pediatricconsultant360.com]
No caso do hidrocelo, raramente ele evoluirá para hérnia e, muito menos, para hérnia encarcerada. Nesse sentido, pode-se esperar para ver se existe resolução espontânea do mesmo. Na Europa e nos EUA convencionou-se esperar até aos 2 anos, altura apartir da qual se acredita que já poucos canais fecharam por si. Como se pode ver na primeira imagem, o encerramento do canal pode ‘enquistar’ porções de líquido.
O hidrocelo é característico dos meninos, pois só estes têm escroto, mas as hérnias inguinais existem também nas meninas. Na menina, a hérnia resulta da persistência do canal de Nuck, uma estrutura homóloga ao canal peritoneo-vaginal dos meninos. Mais do que o intestino, estas hérnias são muitas vezes local de encarceramento do ovário. Por isso, têm também indicação cirúrgica assim que forem diagnosticadas. Mais uma vez, não é urgente, mas deve ser agendada para os meses seguintes.
Uma nota final para chamar a atenção para o facto de, quer o hidrocelo, quer a hérnia inguinal serem patologias que aparecem na adolescência e na idade adulta. No entanto, as causas destas são bem diferentes das da criança. O hidrocelo do adolescente não é comunicante, isto é, a acumulação de líquido não se deve à sua passagem pelo canal peritóneo-vaginal, mas sim a um aumento patológico da sua produção pela túnica vaginal (a camada mais interna do escroto e que reveste o testículo). O seu tratamento consiste na exérese cirúrgica desta túnica. No caso da hérnia inguinal do adulto, a causa é uma fraqueza da parede muscular que compõe o canal inguinal, permitindo que o intestino passe através desse canal (hérnia indirecta, mais parecida com a da criança) ou ‘fure’ a sua parede (hérnia directa). Geralmente, a hérnia do adulto tem uma componente mista – directa e indirecta – e o seu tratamento envolve a colocação de uma prótese (rede) para reforçar as paredes do canal inguinal.

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