Rabinhos a assar I

Recebi um pedido especial para falar de um problema que, apesar de não ser específico da Cirurgia Pediátrica, aparece frequentemente ao desembrulhar da fralda: a dermatite das fraldas. Existe um artigo de revisão muito completo sobre o tema publicado, em tempos, na revista Nascer e Crescer (uma publicação científica do antigo Hospital Maria Pia e que continua a ser editada, mesmo depois da fusão com o Centro Hospitalar do Porto). Mas, ‘trocando por miúdos’ e reflectindo o que é a minha experiência pessoal, cá vai.

Primeiro é preciso perceber o que causa a dermatite das fraldas. Tratando-se de uma inflamação, temos um agente causador e um terreno onde ela (a inflamação) se propaga. O terreno é obviamente o períneo do lactente. E há-os de todos os formatos e feitios, isto é, há uns com mais ‘regueifinhas’ e outros mais planos, uns com tendência a pele mais seca e outros com pele mais oleosa, uns com propensão atópica (alérgica) e outros não. Por isso, independentemente de todos os cuidados que os pais possam ter, existem rabiosques que têm maior propensão a ficarem ‘assados’. Não deve ser motivo de vergonha, porque não se trata obrigatoriamente de descuido dos pais.
[fonte: sedico.net]
Quanto às causas, o tema não é tão claro e parece haver um conjunto de factores que causam a inflamação da pele da criança. Assim, a urina e o tempo que ela permanece em contacto com a pele desempenham um papel central: (1) a urina hiperhidrata a pele, o que não é bom, porque isso seca as camadas mais profundas da pele, (2) contém substâncias que agridem a camada mais superficial da pele, (3) são terreno fértil para o crescimento de algumas bactérias e fungos. Este último é também influenciado pelo ambiente quente e húmido das fraldas sintéticas. Apesar das fraldas modernas manterem o ambiente mais seco, pois são mais absorventes que as fraldas de pano, o ambiente é menos arejado. Finalmente, assim que as camadas mais superficiais da pele quebram, as bactérias e os fungos invadem-na e criam um ciclo vicioso de agressão-colonização localmente. Numa primeira fase, a zona genital, principalmente junto às pregas,  aparece vermelha. Depois começa a espalhar e aparecem ‘bolhinhas’ claras e, por vezes, parece que a pele levanta como uma queimadura. É o «rabinho a assar».
Como evitar? Façam esta experiência, que me ensinou uma enfermeira, durante um estágio na Maternidade Júlio Dinis. Coloquem um bocadinho de óleo de amêndoas doces na pele e vertam umas gotas de água. Repitam o mesmo procedimento na pele seca (sem óleo). Verificarão que, na pele ‘oleada’ a gota cai rapidamente, enquanto na pele seca a água permanece agarrada à pele. O mesmo acontece com a urina da criança em contacto com a sua pele sensível. Se a pele tiver esta camada de gordura (e basta óleo de amêndoa doces), a urina terá muito menos contacto com a pele. Outras medidas que diminuem o tempo de contacto da urina com a pele são a mudança frequente da fralda e o uso de fraldas com boa capacidade de absorção. Apesar de também ter grande capacidade de absorção, o pó talco está completamente contra-indicado, pelo riscos de toxicidade.
Por outro lado, cuidar bem da pele do bebé torna-a mais resistente às agressões ‘do xixi e do cocó’ na fralda. Primeiro conselho: evitar os toalhetes. Eles dão jeito, principalmente fora de casa, mas desidratam a pele e abrem pequenas feridas. Mais uma experiência: um dia substituam a lavagem das vossas próprias mãos com água e sabão pela limpeza com toalhetes. Vejam como têm as mãos ao fim do dia. Elas estarão secas e gretadas. É assim que se sentirá o rabiosque do vosso filho, se o limparem sempre com toalhetes. Por isso, tentem substituir os toalhetes por uma fralda de pano ou disco desmaquilhante com água e sabão. Este últimos dão jeito para tirar o excesso de álcool das toalhetas, porque elas são quase inevitáveis quando estamos fora de casa. Depois do banho e de cada muda de fralda, é importante secar bem todas as preguinhas da pele. A água à superfície da pele evapora lentamente e desidrata as camadas mais profundas da pele, lesionando-a. Não está provado que os cremes ou pomadas com vitaminas (os ditos ‘nutritivos’) evitem a dermatite das fraldas. Alguns, principalmente os que cheiram melhor, têm derivados alcoólicos e alergéneos vários, o que pode irritar ainda mais a pele. Cá em casa, o creme nutritivo sempre foi no final de cada banho, uma vez por dia, e uma camada muito fina. ‘Empastar’ o períneo do bebé várias vezes ao dia vai impedir que ele respire.
[fonte: easypediatrics.com]
Mas, apesar de todos os cuidados, por vezes, acontece: o rabiosque aparece vermelho, assado. O que fazer? (1) Parar completamente a limpeza com os toalhetes. (2) Redobrar a vigilância e mudar a fralda sempre que sujar. (3) Lavar com uma toalha macia com água e sabão neutro. (4) Secar muito bem. (5) Aplicar uma pomada com propriedades cicatrizantes (os também chamados creme das ‘assaduras’), 3 vezes por dia. Nas restantes mudas da fralda, colocar apenas óleo de amêndoas doces, ou equivalente. (6) Se possível, arejar, isto é, andar ao ar, sem fralda, mas com um resguardo por baixo. Estas medidas são suficientes na maioria dos casos. Mas (atenção!), se o problema persistir mais que 3 dias, consultar um médico. Poderá ser necessário associar um anti-micótico e/ou creme com corticóide e antibiótico. Nunca inciar estes cremes medicamentosos, sem antes falar com o médico assistente.

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